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| Literatura - Contos - Policial |
Escrito por: Cilas_Medi![]() |
Dom, 28 de Fevereiro de 2010 09:52 |
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E assim a vida se esvai. Crimes e mais crimes, a polícia não considera que, algum dia e de alguma forma, vá conseguir, primeiro, acabar. Impossível. Segundo descobrir todos os atentados contra ela. A Vida, como essa, agora, mulher formosa, jogada no meio da rua, com o sangue a lhe escorrer pelo baixo ventre. A autópsia vai dizer o que foi, quando e o porquê fica por nossa conta. - Igual a outros três, tenente! - Um em série, só pode, falou outro, soldado. - Nada disso, nada de falar sobre assassino serial. Estão entendendo? Longe dos jornalistas. E falando neles, vamos que vamos. Fiquem onde estão não chegam perto. - Sim, senhor, escutou enquanto se dirigia para perto dos abutres. Bem, não são assim, são ávidos por notícia, pensou e chegou sorrindo. Não bem sorrindo, mais para sarcástico do que para felicidade, evidente. - Um de cada vez, senão sabem como fico fechando a boca e mostrando, acintosamente para todos eles. Apesar das moças bonitas, jornalistas e tudo o mais, sempre educado, mas, pensando bem, se não fizer para todos, fica mal. E encrencado com as solicitações que fazem. - Você primeiro, dando continuidade. - Tenente, assassinato em série? - Não, apenas mais uma morte, como tantas na cidade. - Ela está morta há muito tempo? - Não adianta especular, vocês sabem. Depois direto no Instituto Médico Legal. Eu sei que vocês não gostam de ir até lá, mas é onde poderão obter a informação. Não fiquem em cima da gente e nem do pessoal. Vão, melhor, podem destruir provas. Tudo certo e posso ir agora, procurando fugir deles. - Não disse nada, tenente. Por favor, mais uma pergunta. O que poderia ser se já falou tudo, quase igual. Morta ou morto, tipo dele, a faca ou tiro, estrangulamento e mais algumas formas de mandar alguém para o inferno ou paraíso, lutas e brigas e bem, o que se poderia ter mais de perguntas. Tudo igual. - Fale o que é agora. - A pessoa que mata é pequena? - Não entendi. - A pessoa que mata é pequena, sabe anã. - E porque diz isso? - Bem, os outros três, fui atrás tenente, sabe, vi que os cortes são feitos todos abaixo da barriga. Com faca ou estilete. Pude comprovar pela autópsia. - Sei, tentando fugir. - Sabe o que tenente, com ele atrás e os outros também. Pegou no eixo principal. Essa é uma das informações que, bem, sempre assim, é bom não alarmarem a população. - Não sei mais do que acabou de falar. Sim, os cortes ou estiletes abaixo da cintura. Se forem de pessoas pequenas, não podemos afirmar nada. Estão entendendo? Olha o que vão escrever, não disse nada disso. Pura especulação do colega, apontando, parando, olhando bem para o infortunado. - O que foi tenente, não pode perguntar? Ele fixou o olhar. - Você é de que jornal? - Da Matéria Urgente, tenente. - Sei, sei. - O que o senhor sabe, rindo. Podem falar, todos falam mesmo, não nos importamos. Só vou confirmar para o editor que tenho razão. Aliás, a posição do jornal. Alguém pequeno está fazendo misérias. E elas duas foram mortas da mesma maneira. - Olha só, se tiver algo escrito não fui eu que disse. Se for essa a sua teoria, escreva sobre ela e estamos conversados, olhando firme e ele retornando da mesma maneira. - E acha que foi algum pequeno, perguntou outro colega. Um rejeitado é isso? Anotou algo no bloco, prestando atenção nos dois. E mais duas moças e dois outros rapazes do mesmo jeito. Dois fotógrafos e dois cinegrafistas. Ele deu uma piscada geral, sorriu no sarcasmo próprio, ajeitou a roupa, bem acintoso como gosta de fazer e foi para o veículo público, com outro soldado no volante. Abriu e bateu a porta sem dar mais atenção. Eles pararam. Já conhecem a fera, pelo visto. Corta assim, sem mais nem menos. E não adianta reclamar. Deu a atenção que haja que é devida. Depois, na delegacia, até que é melhor falar com ele. Durante a investigação inicial, melhor não aborrecer, até para poder ter melhor atenção quando pode fazer. *o*
- E aí, Catatau, falou rindo e apontando. Ele saiu correndo e o anão atrás dele, rindo também, brandindo o cassetete de plástico. - Porrada, gente, briga, gritou mais dois e atrás deles com o maior esperando chegar, abaixou, recebeu a porrada no meio da testa e caiu para trás. Ele avançou. No peito agora, pulou em cima e definiu por vez vencer a briga. E aplausos da pouca platéia em volta. - Está bom, chega agora, gritou o mestre de cerimônia. Vamos almoçar. Chegam disso, mariquinhas, vão ficar se alisando? E a turma rindo. Vamos embora, pessoal, hora de almoço, gritou para os outros que estavam fazendo o mesmo. Treino e mais treino. Um circo de periferia, mas excelente e bem montado. Tudo em ordem, limpo e equilibrado nos seus dois mil e quinhentos lugares, em formato redondo. Eles no picadeiro central e a brincadeira final. Os de cima, os voadores também. E para a tarde o restante vai fazer o mesmo. À noite, dezenove horas e vinte e uma horas. Parcialmente vendidos para duas empresas, com cerca de vinte por cento dos lugares ainda em aberto. Bem, melhor assim. E o mestre de cerimônias também o é no assunto comercial. E quando manda, obedeçam. - Vamos, gente, ele saindo de cima e dando a mão para o outro levantar. E mais risadas. - Vamos, gente, acabem com isso. Catatau chega. - Sim, senhor, não se pode nem brincar. - Não cansa? - Claro que não. Vou almoçar com a minha turma, falou sério. Só aceito até um metro e vinte centímetros. Você, grandão, cai fora. - Vai me bater? - Olha, não sei não, vou pensar. E deu-lhe mais duas cacetadas de plástico mole na cabeça antes de se levantar. Ele gritou de dor e a turma riu. - Venha, querido, Catatau, chega amor. - Pronto, chegou a patroa, provocou o defenestrado. Acontece na apresentação oficial. Ela desfez deles e pegou o seu amor pelo braço, arrastando. Os dois filhos do casal, nanicos como eles, juntos e rindo do pai. Eles se divertem e acompanham o número com o tio, enorme, um metro e setenta e dois de altura. Forte. E apanha sempre. Quer coisa mais risível do que isso? Um verdadeiro e estrelado começo de noite, acompanham os outros números e fazem sempre a brincadeira, várias outras, no meio das apresentações, para distrair o público, o prestigiado e prestimoso público que os assiste. As risadas das crianças os deixam assim, encantados. E esquecem o seu tamanho, pelo respeito que têm entre os seus pares. Incluindo o grandalhão. É mesmo, faz parte dos voadores e faz questão de brincar dessa maneira. - Oi, tio, chamando a atenção e ele já pega a pequena no colo, joga para cima, quase um metro para o alto e ela volta sorridente. - Eu também quero, falou o garoto. Ele não se furta a essas brincadeiras. Faz com o pai e com eles. Quando ameaçou, em um passado não assim remoto, tentar com a patroa, foi o que iniciou um começo de atrito. Ela não gostou nada mesmo, se disse apalpada por ele, não sou criança, sou mulher. E tenho marido. Ele entendeu, pediu desculpas e achou que ficou assim. Mas não. A cara feia dela, o diz. Feia de ficar zangada, diga-se de passagem. - Vamos, crianças, chega agora. Quer parar, por favor. - Sim, senhora, desculpe. Vão, empurrando os dois. E não se furtou a dar um chute, de brincadeira, na bunda do seu parceiro. Que sequer pegou, mas deu um pulo rindo. E as crianças imitaram. E ela se irritou novamente. Quando olhou, parou, virou-se como se fosse um militar, apertou as duas pernas, bateu fortemente o pé direito no chão, continência para ninguém, ou melhor, para quem estava à sua frente, ele de costas para o casal e foi saindo, batendo e marchando. Eles rindo e ela mais brava ainda. - Não tem tempo de parada, Catatau. Por favor, ele passa dos limites. - Está bem, deixe de ser ranzinza. Que coisa, é brincadeira. As crianças, todas elas, se divertem. E eu também. Está ficando velha, mulher. - Trinta e seis anos e estou ficando velha. Você é que é. E esses dois não são mais crianças. - Mãe, fui! Que coisa mais chata. Venha, Diana. E puxou a irmã, correndo. Dezoito anos e ela dezesseis. Ela chorou, novamente. - Quer parar, Catinha, por favor. Por favor! - Não os queria assim. Mas precisava ter filhos, Catatau. - Mais essa agora. Quer parar, abrindo um pedaço de lona para ela passar. Eu te amo, eles são felizes conosco no circo, mulher. Deixa disso. Já foi a época dessas frescuras. Somos o que somos. Brilhamos no circo. Cada um com seu espaço na vida. Está entendendo? - Estou. Você ainda me ama? - Não, detesto você. Ela riu. - Muito? - Acha pouco, ter todo o ódio do mundo por você! Quando vai embora? - Amanhã, se quiser. - Sem roupas e mais nada. Só você. E as crianças ficam comigo, afirmou. - Nada disso, apertando o seu braço e puxando para o ombro esquerdo e forçando apertar o seu pescoço. Eles são meus, só meus. Ele apertou mais, deu dois cascudos, brincando, em sua cabeça e sorriu. Ela é amada, sabe muito bem. E as crianças, duas pequenas como os pais esperando se acertar. Só não gosta do grandalhão. Não sabe bem porque, mas deve ter outros assuntos não resolvidos. E brincaram, novamente, quando ali estava ele, fazendo questão de colocar os três nas cadeirinhas e rindo. Ela não quer e ele dispensou também. Não sem antes fazer mais uma graça com eles três. O almoço foi servido e a turma toda rindo e se colocando nos bancos. *o* Ele chegou à redação e largou as suas coisas na mesa. Sentou-se, abriu a condição de poder usar o computador, senha e tudo mais. Escreveu rapidamente uma pequena sinopse do assunto e levantou-se. - Fala Felipe. - Chefe, igual, igualzinho. Debaixo, por debaixo, dava para saber. Sangue em baixo da moça sabe, por debaixo. - Já falou, por debaixo da moça. - Então, nada de sangue, conseguimos chegar até um metro, depois que a perícia chegou e liberou. Não tinha sangue na frente, estava de saia. Tirei fotos, mas sabe a polícia não deixou. Tive que devolver. Só depois. Não querem que seja nada publicado antes do pessoal dar o laudo oficial. Mas é como estou lhe dizendo. - Eu acho que já entendi Felipe. - Muito bem chefe, vou digitar tudo e lhe enviar. Até mais. - Até mais. Ei espere. Vai escrever sobre isso? Tem um circo na cidade. Cuidado, pode ter conseqüências. Olha só o politicamente correto, está ouvindo? Se não tiver certeza, não escreva. Ele voltou. - Posso falar. Descrever, melhor dizendo. Os outros dois, um homem e agora duas mulheres, chefe, é assim, olha para mim, depois o senhor lê. Ele fez, tirando a visão das matérias a sua frente para prestar atenção. - Pode, continua. - Então, de barriga para cima, pode imaginar. O sangue, deles três, saindo por baixo. Ou seja, nada na frente. Então a estocada foi por baixo. Faca ou estilete. E a pessoa tem que ter força para isso, chefe. Atingiu o principal, sabe como é dele deve ter doído muito, sequer teve tempo de se proteger. Já imaginou um estilete ou faca, de baixo para cima. Que dor, segurando e o chefe fazendo o mesmo gesto. - Que dor, doeu em mim agora. O que virou Felipe, terrorista. Porra, doeu, brincou e sério ao mesmo tempo. Nossa, deve ter doído mesmo. E sem chance de defesa. Um chute e a gente fica sem forças, imagina uma faca, de baixo para cima, foi o que disse. - Foi chefe, deve ter entrado direto pelo canal. - Caralho, Felipe, chega de detalhes. E não quero saber das moças também. Parece sádico. - Isso, chefe, sádico. Pequeno e sádico estou avisando. - Já pensou na possibilidade dele ser grande e fazer isso por trás, imitando o gesto. Assim, por trás e pegando a faca, ou estilete, já entendi, e crau. Eles dois pularam. Crau repetiu e o Felipe levantou-se. Quando disse o terceiro crau já estava fora da sala, rindo e aterrorizado ao mesmo tempo. Fechou a porta e abriu novamente. E falaram juntos. - Crau! Fechou a porta, batendo com força, pediu desculpas do lado de fora e foi para a sua mesa. Crau! *o* Na delegacia, o tenente fez o de praxe. Iniciou o relatório e deixou de lado para pensar bem o que iria escrever. Vai aguardar o laudo oficial da morte daquela moça. Não era da vida coisa nenhuma como especulara. Tinha uma roupa, mesmo não sendo de grife, elegante. Bem trajada. Um olhar de espanto, os olhos foram forçados para fechar depois que chegaram. É sempre um mau aspecto deixá-los assim, com a morte vinda sem que se espere. No meio da rua, luz nos postes, perto. E no horário provável da morte. Entre dez horas da noite e meia da noite fatídica que lhe tirou o continuar, continuar e continuar, ter filhos e sabem-se mais o que se pode esperar de uma mulher bonita como ela. Mas acabou. E o seu relatório deve ser preciso. A teoria, bem, não custa nada avaliar e fazer os seus contatos e diligências. - Vou até o circo, delegado. - Tenente, cuidado com essa situação. Já falou com o principal de lá? - Sim, falei que iria fazer uma inspeção, tipo segurança e outras coisas. Vou especular. Nada de carro oficial, delegado. Acho melhor assim, vou levar o Laércio. Ele riu. - O que se pode fazer, não tem outro. - Ele se comporta, fica frio. Eu falo e ele escuta e aprende. Ou continua burro. - Ele não é burro, fique sabendo. - Eu sei mais esperto que o devido. E fala demais também. Pode deixar. Vou mais à tarde, depois do almoço. Vou deixar parte feita do relatório. Esperar o Instituto. - Certo. Vai almoçar aqui? - Não, vou a casa e de lá encontro o Laércio. Depois nos falamos. - Tudo bem, boa sorte! - Obrigado. Saiu, fechou a porta do pequeno gabinete dele. E olhou, apontando com o dedão para ele, confirmando. Saiu para a rua. Bem, nunca se sabe se não houver pergunta. E se perguntar, faça corretamente. Quando chegou, no meio da família, olhando para as três crianças à sua frente e a esposa, fica imaginando quem pode estar destruindo - como em todos os casos que participa - e tem a coragem de acabar com a alegria de famílias inteiras. Nunca se sabe o quanto uma morte representa. Pode até ser de uma pessoa sozinha, ela sempre afeta. Até aqueles que lhe preparam para estar, finalizando a existência, em cima de um caixão, mãos no peito ou um pouco mais abaixo, abraçando ou não um ramo de flores. Essa é a definitiva meta de todos nós. Não precisa antecipar com a brutalidade. - Oi, está bom o almoço? - Sim, querida, ótimo. Está ótimo sim. - Preocupado. Não traga lição para casa. - Viu a mãe para o senhor não é para trazer lição para casa e com nós precisa sim. - Com nós, Vitinho. - É com nós mesmo, nós três. - E quer ser advogado? - Como o senhor. - Como eu não senhor. Com nós, eu não senhor. Ele riu a esposa também, o garoto não entendeu pelo visto e continuou discutindo. - É sim, o senhor não trás lição para casa e nós temos que fazer todos os dias. - Eu não posso trazer mesmo trabalho para casa, Vitinho, o que está falando. Sabe que sou policial, filho. Ele percebeu, sorriu e finalmente entendeu. - É verdade, rindo, os dois irmãos também, outro garotão e a menina, luz da vida do policial. Meninas e seus pais, seus brincos e encantos. E com essa imagem, esquece as outras que vê, sem querer, relacionando essa possibilidade de brutalidades com os filhos. - Então, como se fala. - O com nós, perguntou rindo. - É sim, advogado, o com nós. - Conosco. Todo mundo aplaudiu. - Viva conosco, brincou o irmão mais velho, dois anos. E a menina, caçula, um ano e meio mais nova que ele. Trinca do barulho, como se diz sempre da garotada. - Viva conosco para sempre, sentenciou. A mãe comentou com o olhar feliz e concordando com o movimento tradicional de sim. - Viva comigo e vocês conosco, brincou, arreliando. E riram de mais essa dele. Depois de acompanhar, por mais uma hora os filhos e as suas lições de casa, foi para a dele. Quatro horas e trinta minutos chegou e o apressadinho do Laércio já batendo papo com um gigante. Gigante, dois metros e alguns centímetros a mais e talvez, bem, chutando claro, uns cento e sessenta quilos. Enorme. A mão acompanhando. E o Laércio sorriu quando ele cumprimentou e recebeu o aperto de mão. Conseguiu agüentar, foi sim, fui forte, em pensamento, para o debochado à sua frente. - Ele é o proprietário, senhor. - Como vai, tudo bem. - Fui o antigo homem forte do circo. O antigo proprietário me vendeu. Faz quinze anos. O que posso fazer pelo senhor. - Ele não lhe disse nada, verdadeiramente admirado. - Estava falando sobre investigação e nada sobre a que veio a sua visita. Segurança é isso mesmo. Falou que era policial. - Então falou Laércio. Segurança, Laércio. Ele se retraiu. Bem, vamos deixar de lado essa situação. É uma investigação criminal e precisamos lidar com certa delicadeza, até porque são suposições. O senhor leu ou escutou alguma coisa sobre crimes na cidade? Lê sobre isso. - Quase não tenho tempo, tenente. Sinceramente, o circo toma todo o nosso tempo. Quando não estamos trabalhando, estamos trabalhando, se me entende. Sempre aperfeiçoando os números, gritando e dizendo respeitável público e assim por diante. Vida de circo. As crianças estudando, os pais acompanhando e assim por diante. E nas horas de folga, treinamos. Eu levanto, sem esforço, bem, agora um pouco mais, duzentos quilos no supino. Quer ver? - Não, obrigado, tenho por que acreditar pelo tamanho e sua força, abrindo e fechando a mão. - Fui indelicado, desculpe, não consigo controlar. Da próxima deixo apertar a minha com força. Ele riu da brincadeira. Bem engraçadinho. Depois que esmigalha como posso ter força para retornar. Mas não importa, não é esse o assunto com que viemos tratar. - Viemos para conversar sobre uma teoria. Somente teoria. - Está preocupado com alguma coisa e, tenho certeza agora, trata-se de algo a ver com o circo. - Não necessariamente. As pessoas que trabalham nele sim. Não necessariamente, afirmou novamente. Vai ser difícil, como pode perguntar sem acusar? - Bem, vamos ao meu camarim. Naquele container, apontou. Ar refrigerado. Vamos ficar mais confortável. - Está bem instalado, confirmou, olhando para todos os lados. E viu o motivo que o trouxe. O casal, com os dois filhos, refestelados ao sol, balançando, na cadeira pequena, os seus pés, rindo e brincando um com o outro. Será? - Sim, o antigo dono, bem, aprendi tudo com ele. Afinal é a nossa casa, aliás, de todos. Uma grande família. Ele ouviu bem, uma grande família. E como posso falar nessa dúvida sobre um dos seus membros. Ou vários deles. Bem, ao olhar para o Laércio viu e sentiu a mesma preocupação. A coisa toda vai ser bem difícil. Ele abriu a porta, eles entraram, ele ligou o ar logo na entrada e o ambiente já estava melhor antes mesmo dessa atitude. - Bonito. - Obrigado. Sentem-se. Então, a que devo a honra. Crime com o fator circo. Alguém caiu do trampolim, agora não temos animais, portanto nenhum deles se alimentou com algum transeunte. E conheço todos, com rosto como se estivesse marcando e procurando puxar pela memória, sim, conheço os que aqui trabalham a dez anos no mínimo. - Dez anos? - Sim, muitas das crianças são ciganas de nacionalidade, rindo. As mães as tiveram no meio da viagem. A ida aos hospitais foi para completar somente. Portanto, meio de cidade e entre as cidades. O que posso ser útil, tenente, não é. - Sim, tenente e ele é assistente, apontando. - Cabo, senhor, já sou cabo da polícia civil. - Sei, muito bem então. Pode perguntar. - Não vou fazer rodeios. Contou em detalhes os três casos. Bem, sem os detalhes mórbidos, mas dizendo da teoria que já estava no meio jornalístico também, acrescentando a possibilidade de ser veiculada em jornal assim, como direi sensacionalistas. E o prejuízo total com relação a eles. - Mas isso não é novidade, tenente. Em todas as cidades que percorremos sempre teve mortes assim. Ele se levantou agora assustado. - E diz assim, com essa tranqüilidade? - Não estou tranqüilo. O senhor não é o primeiro a nos visitar e fazer essas perguntas. - E como pode ficar assim tranqüilo? - Com a certeza que nenhum de nós praticou esses crimes. Ficamos às vezes, de três a quatro semanas, ou, conforme a receptividade, um mês e meio, ou seis semanas. É o máximo que ficamos em cada cidade. E não temos tempo para sair à noite. Temos as seções das dezenove horas e das vinte e uma horas. Se assistir e vir o movimento, vai poder verificar que todos estarão nos lugares até acabar. Sabem, alguns tem mais de uma função. Poucos funcionários e artistas. Para ser rentável. Eles se apresentam, saem, ficam do lado de fora vendendo de tudo um pouco, pipoca, maçã do amor, biscoitos, refrigerantes, algodão doce e assim por diante. Até o último e adorável público. Pode perguntar se tiver mais alguma dúvida. - Pois são três mortes. Mesma condição, morte com ferimento abaixo, ou de baixo para cima, assim, no sexo. Ou deve ser essa a intenção. Alguém com distúrbio têm a plena certeza. E de tamanho pequeno, ou ajoelhado. Com força suficiente para exercer dessa maneira. E se ajoelhado, não pode ficar com mais de um metro ou até um metro e vinte. São os detalhes que achamos viáveis. - E teve mais morte? - Ontem à noite, a terceira. Mulher. Um homem e duas mulheres. - Bem estranho não é mesmo. Não se pode dizer de crime passional. - Tem razão, descartada essa possibilidade. - Certo. E o que podemos ajudar, além de lhe entregar entradas, apresentar todo o nosso pessoal e artistas e deixar que se divirta? - Eu acho que estou satisfeito, por ora. Então, outras cidades. Pode me dizer o roteiro? Ele se levantou rapidamente, os assustando, afinal um enorme desse, da maneira bruta que fez lhes pareceu que seriam agredidos. - Desculpe a força de expressão, rindo. Quando é para fazer, é já. Abriu uma gaveta, madeira por fora acompanhando, mas era de um arquivo de aço. Tirou uma pasta. Os últimos dois anos, delegado. - Tenente, por favor. Dois últimos anos? - Sim, somos uma franquia, não lhe avisei. E precisamos ter tudo sob controle. Ele entendeu. - Muito bem. Todos registrados? - Com certeza. Ministério do Trabalho, sempre, da Educação, constantemente, e da Família e Social. Sabe as crianças. - Sim, entendi. Olhou bem. Viu o tempo e as cidades. Ele continuou solícito. - Quer uma cópia, sem problemas, por favor, já estou acostumado. Tenho a copiadora. Tudo sob controle. E desse pequeno espaço que eu e o Arlindo controlamos tudo. - Arlindo? - Sim, o mestre de cerimônias. Saiu, volta mais à tarde. Sempre faz as suas excursões pela cidade, às vezes leva as crianças no cinema. Essas coisas de turista. Não se cansa nunca. Mesmo em cidades que já foi, faz o mesmo. É um pouco, digamos, não estranho, mas gosta de ficar sozinho. - Entendi. Sem problemas. Uma cópia seria o suficiente. Obrigado, mesmo, muito atencioso. Ele tirou as três folhas da pasta e copiou. Rabiscou os valores financeiros e lhe entregou. Tudo em ordem. - Não posso divulgar os valores, tenente, a não ser sob ordem judicial. O senhor compreende. - Sim, com certeza, está ótimo, olhando as três folhas, mais e mais uma vez. Dobrou e colocou no bolso do paletó. Que refrigério. Paletó nesse calor é mesmo um assombro essa condição. Ainda bem que a gravata foi abolida. Quando estava saindo do container, logo atrás dele o Laércio e por fim o gigante vira o casal, bem interessados em todo o movimento. E vieram, se aproximando devagar. - Catatau, nada não. - De novo, o senhor é policial, saindo do gigante e olhando para ele, atento. Afastados para evitar que ficassem com dor no pescoço. Ele, tenente, não é assim pequeno, nos seus um metro e setenta e cinco e o Laércio um pouco menos. Mas o casal, se muito, um metro e vinte e um metro e dez. - O que o senhor quer dizer. - O mesmo assunto de anão ou anã, abraçando a esposa, ter cometidos crimes. É. - É, falou firme. - Vamos embora, Catatau, a Catinha puxou pelo marido. Idiotas. - Quer parar, querida. Olhe aqui, dela para o tenente, esse assunto ainda vai dar problemas para vocês, fiquem bem certos. Como podem acusar, ou pensar dessa maneira. - Por um acaso não existe criminalidade entre vocês, falou ríspido. São todos anjinhos? - O senhor está afirmando alguma coisa? - Não, não estou afirmando nada. Estou fazendo o meu trabalho e começamos mal. Por favor, não se irrite. Já vi que se aborreceu o suficiente com o assunto. - Muito. Toda a vez que vem policial sentimos o cheiro de longe. E são pelo mesmo assunto das outras cidades. Contou para ele, bravo. O Laércio começou a rir. - O que está rindo meu jovem, falou ela zangada. Acha que não sabemos nos defender porque somos pequenos. - Não, senhora, não foi esse o motivo, tentou se explicar. Não foi, fique certa. - Eles me batem, policial, brincando, falou o enorme. - Não faça assim, por favor, vou ficar brava com você, Elefante. - Elefante, está me provocando, sua ratinha. - Elefante tem medo de rato, seu besta. Ele riu, o tenente ficou olhando de um para o outro, o Laércio perdeu a compostura e o Catatau ria muito. - Vou defender a minha mulher e sabe que não sei do que sou capaz, Elefante. Vou lhe acertar qualquer hora. Assim. E o gesto que fez o tenente e o Laércio veio para trás. Crau, no pensar do Felipe e do chefe dele. - Epa, falou sem querer. - Já sei, é assim que eles morrem. Eu sei, eu sei, eu sei. Que merda. - Catatau vai embora. E estou brava com você, Elefante. Estou mesmo. Venha querido, não dê mais explicação nenhuma. E essa brincadeira que faz, veja se eles estão rindo. Vão achar que é você. Estou brava, puxando o marido e ameaçando o enorme. O tenente e o Laércio, bem, não conseguiram se segurar, acompanhando depois que ouviram a estrondosa gargalhada do elefante, gigante ou o que seja. O enorme segurava a forte barriga, chorando de tanto rir. Ela se voltou, pôs as duas mãos na cintura e levantou a direita de punho fechado. Ele riu mais ainda e os dois não se contiveram novamente. Quando terminou, eles esperaram, estavam de volta nas suas redes armadas, com ela de pé, falando e gesticulando e ele rindo e se balançando. Os dois pequenos do lado, ora olhando para o pai e rindo, ora para a mãe e ficando sérios. - Ela é terrível. Sabem ainda enxugando as lágrimas, eu mataria por eles dois, fiquem certos. São os nossos artistas principais e ainda me divirto com eles dois. Muito. Aliás, são os preferidos das crianças. Os filhos fazem o número e um dos voadores também. Apanha tanto com aquele cassetete de plástico mole que já está ficando com galos na testa, ainda rindo. Como podem ver, não é possível acreditar. - Ele fez o gesto. - Pois é, depois de mais de cinco cidades é para estar bravo também não acha? - Por isso é que fez. Brincalhão. - Não sabe o quanto e como parar. Por isso a ratinha fica brava. Ele é um dos palhaços mais bem humorados que conheço. Está feliz com a vida que leva, tem orgulho da sua altura e desse fato, sem constrangimento. Ela é birrenta, mas se amam de paixão. Aliás, como disse e sei que prestou atenção, todos nós mataríamos para defendê-los. São, até pelo tamanho, mascotes. Sem ser depreciativo. É a alma do circo. Verdade, quando eles olharam com verdadeira desconfiança. Podem acreditar. Verdade. - Acreditamos. Então, vamos embora. Assunto encerrado. - Não senhor, falou sério. Como em outras cidades, precisamos da polícia aqui. Quantas entradas? Família? - Cinco pessoas. Três crianças. - Que idade? - Quinze treze e onze anos. - Meninos? - Dois mais velhos e a minha queridinha. O Laércio é solteiro. - Tenho namorada e irmã, tenente. E o namorado dela, falou esperto. - Muito bem, sem problemas, temos como fornecer. Não se preocupe tenente, por favor, faz parte da verba de publicidade. É verdade. Vou mostrar. Aguardem, por favor, aguardem. Foi rápido como sempre e voltou em menos de um minuto. E sim, ali estavam as entradas de cortesia. Tudo bem acertado. - Precisamos dar os nomes? - Sim, mas depois tenente, não se preocupe. Vão vir na seção das dezenove ou vinte e uma horas. - Laércio? - Dezenove horas tenente. - Então venho na outra. Pode ser assim? Discretos! - Ótimo sim ótimo. Vamos ter o prazer da companhia do sabem, aquela famosa frase. - Respeitável público, brincou. Ele repetiu e riram. Quando estavam saindo, a briguenta veio correndo para perto do gigante. E estava, com as duas mãos na cintura, dizendo qualquer coisa para ele. Dedo em riste e de volta para a cintura. Ou muitas. - Que fera! - Laércio, brigou. Mas é mesmo, dessa vez vou lhe dar razão, voltando a rir. Passaram pelo inusitado grupo de pessoas, algumas parcialmente arrumadas, já disponibilizando e trabalhando na bilheteria, arrumando os trajes e lhe dizendo obrigado com os olhos. Assim, se são discretos eles também são. E tiveram a nítida certeza que todos sabiam da presença deles e, principalmente, o assunto a ser tratado. Uma grande família. Aliás, foi bem avisado sobre ela. E o perigo que poderia correr se lhes afrontassem. E no veículo, sim, cada um per si voltou a gargalhar. Que pequenina valente. *o* Tinham realmente a razão. Completa. O Laércio saiu há exatamente oito horas e trinta minutos e encontrou a família e o tenente na fila. - Tudo o que falaram tenente. Vou ficar por aqui, vou voltar depois que deixar a minha namorada. As apresentações e os beijos costumeiros, simples, de recém conhecidos. Eu volto. - Para o que, Laércio? - Tenente, deixa comigo. - Deixar contigo! - Tirei foto de todo mundo. - E se for alguém daqui de dentro acha que vai sair hoje para fazer a mesma coisa. Laércio? Vá para casa, deixa comigo, isso sim. Hoje viemos nos distrair e conhecer o pessoal. Somente. Aproveitou ótimo. Vá para casa. - Sim, senhor. Vamos, princesa. Até logo crianças. Eles sorriram quando os dois casais saíram e o pivete não se furtou. - Ele é teimoso como eu, pai. Não o conhecia. - Isso mesmo, teimoso como você. E parabéns pelo não o conhecia. - Falei certo? É mesmo. Bem, mereço dois saquinhos de pipoca, o que acha? - Não acho nada, rindo. Pivete. - Sei, sou mesmo. Então, dois saquinhos e pode dar a grana. - Dar a grana. - Não, desculpe, por favor, pode me passar o dinheiro, falou sério. Ele pegou do bolso e entregou dez reais. Eles dois saíram, os mais novos e o mais velho ficou observando. - Não vai sair para o saquinho de pipoca? - Não, mãe. Eu ainda consigo me divertir com eles dois. São crianções. Eles riram o casal. - Você não é claro. - Claro, não sou não. E abraçou a mãe, apertando. De grátis, reforçou, é ótimo, não é mesmo, senhor tenente. - Bobo. E o pai ameaçou dar-lhe um cascudo. O gigante foi chegando perto e o garoto se retraiu. Pôs a mão à frente o tenente o cumprimentou e ele puxou, informando. - Nada disso, tenente, na fila, não senhor. Pode vir. Senhora, tirando a mão dele e levando à frente. - Cuidado, querida, tem dois perigos nesse circo. O gigante começou a rir, entendeu perfeitamente a piada. E fez questão de ser gentil. - Quais são? - Passou, não doeu, bem um deles se livrou, rindo. Ela entendeu agora. - E o outro, qual é? - Bem, ala feminina. E o gigante riu de novo, quando se aproximaram do bilheteiro, já liberado para a entrada, entregaram todas elas e esperou as duas crianças chegarem. Vieram com dois enormes pacotes. - Acabou a grana, o dinheiro pai. Esse era o menor. O gigante começou a rir. - Outro perigo, pelo visto. - Sim. Os pequenos foram com eles. A família é difícil, eu avisei. Cinco reais cada um, foi, perguntou afirmando. - Sim, senhor, olhando para cima. Foram dois pequenos, anões. - Não, nada disso. Eles são os Mini. - Mini? - Sim, Mini. Os dois. Por que, achou que fossem adultos? Não são, são Mini. Um e dois. Irmãos. Foi com eles que foram, sim, totalmente enganados. E riu novamente, entrando pela lateral e seguindo até o lugar que lhes foi reservado especialmente. Eles dois, pequenos, ainda deram adeus aos dois pivetes. Danadinhos. E quando a função começou, entenderam porque foram citados como Mini. Em dois carrinhos de bebes, em desabalada carreira, se segurando, rindo muito e paramentados com chupetas enormes, fraldas idem, quase cobrindo a eles, com a mãe desesperada atrás e o pai fugindo dela. E tome cacetada de tudo quanto é lado. Saíram, depois de mais estripulias e a função começou com o respeitável público. Logo em seguida, o palhaço mais velho, saiu de dentro, passando pela cortina, deu uma cacetada no apresentador e a garotada esfuziava, gritando para ele tomar cuidado e lá vinha ele de novo e outra cacetada. Até que conseguiu, olhando antes quando começou a falar do número, ele parou no meio do caminho, o apresentador ameaçou de apanhar e fazer o mesmo com ele pulou duas vezes com as perninhas tortas e saiu correndo para dentro da cortina. Finalmente, a primeira atração e os malabaristas entraram. O tenente atento as brincadeiras, rindo e ao mesmo tempo com o radar ligado. Ali dentro, se houvesse alguém com instinto assassino, deveria estar primeiro, se divertindo. E olhe o pequeno de novo, fugindo de um grandão, agora, todo molhado, deu a volta por trás da separação da arquibancada, o grandão com uma balde enorme na mão e fez o pequeno parar, para a direita e agora para a esquerda ameaçando atirar a água. Ele para um lado, para outro e pronto, lá se veio a água, com a turma atrás se apavorando para sair de trás do baixinho. E nada disso, uma chuva de papel picado, colorido e brilhante e a correria para dentro da cortina novamente. E a turma aplaudindo, as crianças brincando com os pais e dizendo que foi quase, dessa vez. Ele também, se apavorou com essa possibilidade e os dois pequenos rindo a toda na sua frente. - Pai, ele é o máximo, pai, gritava o Vitinho. Não é mesmo? Mãe! - É sim, filho, estamos adorando. Agora, veja os cavalos. E sim, os eqüestres, apoiados, pulando em cima dos cavalos que giravam sob controle de um no meio, ordenando e os fazendo obedecer. Parar, girar duas vezes e retornar por aonde vieram inicialmente. E ao término do numero, de pé sobre o cavalo, ele surgiu das cortinas, com os dois pequenos atrás, gritando por ele. Um dos grandes, já parceiro, apanhou em outra oportunidade, simplesmente o levantou, o cavalo passou e ele jogou em cima. Ficou de pé, se divertindo e fazendo o mesmo com o público. Quando passou por ele novamente, simplesmente se atirou. O grandão o segurou e caiu com ele no meio da arena. E lá vieram os dois pequenos, com cassetetes de plástico e tome bordoada. E o grandão só apanhou. E parecia se divertir mais do que todo mundo. E quando ameaçou de chutar e conseguiu levantar do chão para isso, aparentemente conseguiu acertar o principal com dois bons chutes na bunda, pulando e esfregando. A garotada delirava, aplaudia e gritava histérica. Os voadores, com a previdente e o apoio mais do que conveniente da rede de proteção, enquanto ele fazia as estripulias, empurrando a turma que estava trabalhando, chamando a atenção da garotada e fugindo para a cortina quando o desesperado do apresentador, já cansado, tudo fazendo parte da comédia instalada, ficava nervoso e tirando o suor com um lenço enorme e vermelho, com a cartola colocando e tirando. E outro apresentador, todo de branco atrás dele fazendo palhaçadas. O próprio, parceiro do baixinho. Sim, ele se diverte, com certeza. E quando anunciaram os irmãos voadores, ele simplesmente tirou a máscara e se apresentou com uma linda moça e mais dois rapazes. Um mais velho talvez pai deles todos, ela jovem, bonita, charmosa e todos os brilhos que se pode ter para chamar a atenção. Das pernas, sim, o tenente viu muito bem. E a esposa viu que ele viu e prestou atenção demais, até a subida pelo mastro e a chegada em cima. E o mais forte no pequeno e os sustos de saltos e piruetas. - É parenta, uma grande família, balbuciou no meio da gritaria e dos sustos. - O que disse querido? E chegou perto para ouvir. - Uma grande família. Sim, pode ser, resmungou novamente. Nada, querida, estou resmungando. - Está bem. Já o conhece. Remoendo caso, como ele mesmo diz e ela sabe que faz. A função terminou e os saltos finais para terminar na rede de proteção são outra das graças para assustar. Enquanto desmontavam a rede, lá veio ele novamente e a correria desenfreada em um carrinho, batendo no parceiro que estava terminando de agradecer ao público. Parou. Ameaçou de bater novamente. E o grandão só esperando, chamando para a briga. Ele parou, tirou a vestimenta de palhaço, ficando sós de calções vermelhos, mostrando o físico e pondo os braços para cima. Sou forte. Enquanto isso a turma desmontava. O outro fez o mesmo, saindo pela cortina com os seus e voltando de imediato. Agora com luvas enormes de boxe, destacando em seu traje branco, aquela disparidade. O pequeno não se fez de rogado. Entrou o restante da família. A esposa trazendo as luvas enormes e os dois pequenos com toalhas, baldes e fazendo firulas com a platéia, ela com um cartaz dizendo que ele era o matador. Assim, Fortão o Matador. E tome risadas, porque no meio de colocar as luvas, quando a esposa colocou a primeira ele desabou. Retornou, colocou a segunda e foi de volta para o chão novamente. Aprumou-se, acertou as luvas na mão, a esposa ajudando. O menino foi à frente e anunciou a luta do século. Mastodonte, um estúpido à sua direita e o Fortão o Matador à sua esquerda. E partiram para a luta. Ele mal conseguia levantar a luva do chão e o grandão passou a lhe acertar diversas vezes com a garotada gritando que não, não, não dá porrada nele você também. E nada, coitado, com as enormes luvas ele não conseguia levantar. Os dois pequenos se puseram debaixo das suas luvas e apoiaram, com o pai ajudando a ficar pelo menos eretas. E levaram um petardo do grandão que os derrubaram os três. Para que, com a criançada gritando, a esposa partiu para a luta. E tome cacetadas de bastão de plástico, ele largou as luvas e nunca se viu uma pessoa apanhar e rir na mesma medida. E quanto mais acontecia mais ele ria e a garotada simplesmente partia e voltava do paraíso. E quando a música tocou para a próxima atração, eles saíram simplesmente carregados. O grandão porque apanhou. Os quatro porque bateram muito. - Eu vou ter uma síncope, querida. - Nossa nunca me diverti tanto. E ainda tem mais pelo visto. - Sim, parece que passou uns minutos. Quando a gente se diverte o tempo passa depressa. Falta ainda mais quarenta minutos. Deve ter um intervalo agora. E foi o que aconteceu realmente. Ele chorava de felicidade e para a família pareceu acontecer o mesmo. Eles se levantaram e não precisou nem perguntar quando o pivete colocou à mão a frente com o olhar complacente da irmã. Mais dez reais. E riram por antecipação. Quando saíram, viram os dois pegando as maças. E quem estava servindo era o palhaço. Foram até ele. - Como vai, tenente. Está se divertindo. Como vai madame. - Tudo bem, você é mesmo um assassino, brincou. - Mesmo, por quê? - Vai nos matar de rir. Parabéns. - Obrigado, senhora, mas é mais do que gentil. Eu faço o que gosto e acho que fico mais feliz que todos eles. Conhece o meu parceiro, apontando logo à frente, vendendo bugigangas, de assoprar, de iluminar bastão quando agita rapidamente. E sorrindo para eles também, de volta. E fazendo o célebre dedo para cima. Positivo. - Ele é que se diverte muito mais. - É verdade. Muito mesmo. Adoro esse cara, falou um pouco emocionado. Sabe que ficou sabendo da sua visita, tenente, e não gostou nada. Ele é um pouco enfezado quando nós estamos em perigo, vendo a mulher se aproximar. - Oi, tenente, falou zangada. - Minha esposa, apontando. Ela é o perigo que lhe falei, querida. - Como vai, apertando a mãozinha dela que não recuou, ao contrário, fez questão de ser mais do que cumprimentada. Respeitada. Não vou deixar o meu marido lhe incomodar. - Espero mesmo. Querem uma maçã? Uva com chocolate? - Sim, obrigada, maçã. Quanto é? - Cinco reais. Para a senhora, gentil, nada. - Querido, ela afirmou. Ele tirou o dinheiro do bolso e pagou para o marido. As duas se enfrentaram, houve uma espécie de como vai ser, sou assim também, pronto. Acertaram. Os dois se abstiveram de rir. Ninguém quer apanhar em casa. Ou no circo. Afinal é uma grande família e pode haver escândalo e sair nos jornais. Eles se posicionaram no banquinho para ficar na altura de atender outras pessoas, puxou uma delas e entregou para a sua adversária. E sorriu firme. Eles se afastaram para não prejudicar as vendas. Ela fez menção de rir, mas aconteceu depois que se escondeu, praticamente, longe do estande e da vista deles. - Não falei. - Menino, que força tem essa pequena. Fiquei balançando, rindo e explicando. Está uma delícia a maçã, não quer um pedaço. É do amor, brincou. - Ótimo, quero sim, pegando um pedaço ajudado por ela. E os três se aproximaram também, já ajustados nas suas compras. E lá se foi todo o dinheiro novamente. Pelo visto, para os três. O gigante deve ter dado uma bronca nos dois Mini, como chamou. - Mais pipoca. - Sim, papai, ganhou como extra, afiançou. E ainda deu para comprar um refrigerante, mas já tomamos. - Sei extra. E sorriu. Mais dez minutos, a chamada para a entrada novamente e lá se foi eles para a folia. Enquanto e no tempo que ficou fora, nada suspeito. Se for possível fazer diligência dessa maneira. Mas a presença dele fez o efeito que precisava. Todos estão sabendo que a polícia está fechando o cerco. Sendo ali ou não o espaço reservado, como o deles, para alguém ou alguma pessoa, de fora e de lá de dentro, estar fazendo as barbaridades. Qualquer descuido, pronto, estará presente. Quando saiu, não é mesmo comportado e sequer obediente, lá estava o Laércio esperando por ele. - Laércio. - Tenente, boa noite, novamente. Estou de olho enquanto se diverte. - Vou embora, Laércio, está perdendo o seu tempo. - Não estou não senhor. - Não está? Porque diz isso. - Muita gente saiu antes de acabar. - E o que fez? - Tirei fotos, tenente. Nunca se sabe. - Vai dormir Laércio, até amanhã. Vamos crianças, chega. Eles estavam rindo, brincando com os dois pequenos e se despediram. E vieram contando as novidades, depois que o Laércio, finalmente, se afastou para ir embora. - Viu, pai, ela tem dezesseis anos. E tem somente um metro e dois centímetros, pode acreditar? - Posso, é mesmo pequena. - Ela é bem bonita, isso sim. - Apaixonou? - Não, pai, não brinca. Ela é bem simpática, fala bem, já terminou o segundo grau e diz que vai fazer faculdade. É sim, é inteligente. E ele também, precisa escutar o que falam. Ele vai prestar vestibular o ano que vem. E diz que vai entrar em medicina. Pode? - Como assim, pode? - Pelo tamanho. Diz que chegou a um metro e doze centímetros. Pode clinicar assim? - Bem, não sei. Não vejo nenhum motivo para não fazer. - Mas disse que vai ficar no circo mesmo. Ele não larga as brincadeiras com o pai. Diz que é o seu herói. Eu disse que também tenho um, não é mesmo? - Não sei, tem? Cutucou a esposa. - Tenho uma heroína, minha mãe. E riu. - Seu safado, acabou a grana no fim de semana. - Pô, pai, é brincadeira. Você é o meu herói. - Puxa saco sem vergonha. E você dois, gostaram? - Sim, muito. Obrigado viu pai. Eu adorei mesmo. A menina confirmou com a boca cheia de pipoca. - Eu também, querido. Adorei. E o grito que ouviram acabou com a serenidade da noite. Lá se foi toda a alegria e uma grande parte do respeitável público já tinha ido embora. E os que ficaram, fizeram por bem apressar o passo e sumir. Eles ficaram para o final. E pelo visto, olhar a tristeza, quando uma delas, não se importou em saber, saiu correndo de uma das cabines, ou container, gritando desesperada. Ele não estava armado, bateu quase automático nas costas, mas o segundo seguinte encontrou com ele correndo para o local. E quando chegou, bem, se estivesse armado, com certeza, teria matado alguém. - Porra, isso lá é brincadeira, falou bravo. - Poxa, tenente, fui morto e ainda briga comigo. O desgraçado, só falando assim mesmo, estirado de braços abertos, cheio de molho de tomate na bunda e batendo as perninhas. - Sabe que é assim que foram encontradas as três vítimas? Ele se levantou, bateu o molho, tirou as calças e terminou de limpar a maquiagem. E se descobriu sério, novamente para o tenente. - Olha, tenente, esse assunto está nos perseguindo. Não somos nós, mas, com certeza, somos as vítimas dele. Alguém está querendo nos incriminar, já falei com o Elefante e com o Arlindo. Eles dizem que não, mas a minha teoria é essa. Alguém, do passado, só pode, estão juntos há muitos anos, está nos fazendo esse favor. Cinco cidades. Quase um ano essa situação. E várias tentativas de nos deixar encrencados. - Só pode ser algum maluco então. - Ou alguém que não gosta de nosso sucesso, tenente. Eu fiz esse circo, ou melhor, fizemos uma grande família. E se tem alguém que possa me infernizar, ou melhor, algum assunto que me deixa triste é essa situação. - Está achando que estão querendo acabar com a sua graça! Com o seu bom humor! - Também. Eu me divirto fazendo, não é só profissional. Desculpe a forma de chamar a sua atenção. Glória, oi, querida, com ela colocando a cabeça para dentro da cabine. Vai presa, viu péssima atriz. Ela sorriu mais entristecida do que propriamente contente com a brincadeira mais do que mórbida. - Não gostei de fazer, tenente, fique certo. Só fiz porque ele me pediu. - Eu sei. Não vou prendê-la, estou sem as algemas. - Obrigada, tenente. Saiu e ele se voltou para encarar o assunto. - E o que podemos fazer, afinal? - Vou lhe dar, o Elefante tem todos os nomes das pessoas, tenente. Faça um retrospecto para nós de todos eles. Os atuais eu não acredito mesmo. Ninguém poderia nos manchar dessa maneira. Mas dos antigos, como vou poder saber? E se foi depois que entrei, pelo que saiba, não prejudiquei ninguém. Todos que saíram, foram embora pelo próprio mercado e suas oportunidades, se está me entendendo. - Estou perfeitamente. Entendi. Vou fazer, é uma maneira de começar. Já que tem toda essa certeza. - Tenho sim, foi bom conversar com o senhor, falando rápido. E o Elefante surgiu na porta, o Arlindo também. - Porra, não faça mais isso. Estava no banheiro quando ouvi o grito seu palhaço. O que falou para o tenente. A sua teoria? Elefante, isso vai dar merda, ainda. Palhaço. - Obrigado, obrigado, sei o que sou. Obrigado, meu público amigo e conselheiro. E riu debochado, do apresentador. - Eu ainda te mato, seu palhaço idiota. - Epa sou tenente. Está ameaçando? - Eu, ameaçando esse cara. Ele que nos ameaça todo o tempo. Fala com ele Elefante, vou terminar de me limpar. Besta. Idiota. E se rir eu mato você na frente do tenente. Vou preso rindo. Idiota. E foi mesmo, se segurando e tirando riso de todo mundo. - Não liga tenente, ele não faz nada disso. Estou dizendo, só da boca para fora. Eu tiro sarro dele o tempo todo. O que um ri o outro briga. Conhece as duas partes. Não ligue, estou falando sério. Ele, o Arlindo, não consegue matar nem mosca. - Mas ameaçou e me deixou assustado o modo como fez. - Pois é, ator, para conseguir segurar o público só uma pessoa como ele. E não gosta tanto porque de vez em quando eu o acerto mesmo. E passo a mão na bunda. Fica puto. Mas matar por causa disso, esqueça. Totalmente. Riu, o Elefante acompanhou e o tenente resolveu. Riu também, o que se pode fazer com uma turma assim. Família. E ele percebeu o empurrar do enfezado entre eles, rindo da sua atitude. Provavelmente por conhecerem e não se importarem mais com as brincadeiras. Afinal ela avisava que fora isso mesmo. A autora do grito. - Catatau, ouviu o estridente chamado atrás dele. Ela. - Oi, Catinha. - Oi, Catinha. O seu filho desapareceu de novo e você fica brincando. Ele se interessou, muito até, sobre esse desaparecimento. - Desapareceu, dona Catinha. Ela olhou para ele, tenente, com medo da atitude ferina dela, a característica de mãos na cintura e o olhar malévolo. Tanto que a turma foi saindo, rindo, mas quero ficar longe. - Catinha estou conversando com o tenente. O assunto. - O assunto principal é o seu filho e aquele idiota que o leva não sabe para onde. Vai tomar providencias de uma vez por todas. - Catinha, saindo do container depois que pediu para o tenente fazer o mesmo. E fechou a porta. Catinha, querida. Tentou abraçar e ela tirou as suas mãos. - Nada de querida. É a última vez que ele faz isso. - Catinha, por favor, vou me despedir do tenente. - Não vai não, que assunto é esse de desaparecimento? - Preocupações exageradas de mãe, tenente. Deixa estar Catinha olha só, veja para o olhar do tenente. Sabe o que ele está pensando? O nosso filho, suspeito. - Como é que é? Suspeito do que? - O que você acha, acertando a palavra você mais fortemente. Disse que ele desapareceu com o Flecha e agora, o que acha? Me fala! Preocupação de mãe ou mais alguma coisa. Vamos, fale para ele. O tenente veio um pouco para trás. Ela o encarou. Agora é a mãe, gente, sai de perto, de lado, de cima e não fique em baixo. - O senhor vai acusar o meu filho? Quase histérica. - Eu não falei nada, dona Catinha. Só fiquei preocupado com esse assunto de desaparecimento. - Pois é, faz isso duas ou três vezes na semana. E não sei para onde vai. Por trás dela o pai fazia sinal masculino e ele tentou segurar, mas, acabou rindo. Ela percebeu, se virou e quase o pega no ato. Catatau! - Catinha, querida, ele é homem. Dezoito anos. Foi se divertir. Já falei isso para você. - Do jeito que é? - Catinha, vai acabar chorando, meu anjo. Tenente pode deixar, pois são assuntos internos, brincou. O senhor nos deixa avisados, não é mesmo? Elefante, ele já está de posse dos nomes? - Não, Catatau, só dos roteiros. Quer eu faço já. E sim, fez já, pelo menos sumir dali, rápido apesar de todo o tamanho. Rindo. Ele realmente se diverte com o pequeno. - Então, tenente, querida, me deixa terminar. Juro, cinco minutos, já vai. Vai, amor, empurrando com delicadeza. Vai, ela segurando e estando, frontalmente, disputando o direito de perguntar mais. - Meu filho suspeito, ela ainda bradou, virando-se e o encarando. E finalmente os deixou em paz. Ou melhor, um tempo sem ela. Marchando para o seu container ou camarim, o que seja. O pessoal dispersou. Mais um minuto, o esbaforido do Elefante de volta, com mais duas folhas de papel. Com nomes e toda a informação necessária de empregados e desempregados. Quanto a educação e, principalmente, administração correta, não tem a menor dúvida. E de uma pessoa que, aparentemente poderia ser um bruto. Que nada, parece até o contrário. A cabeça é o pequeno e ele o seu diligente e expresso comandante de ordens. Ou não. Nunca se sabe em uma família, afinal está conhecendo agora. - Obrigado, Elefante. Elefante? - Ramiro, tenente, sabe que a gente acaba esquecendo o próprio nome. Apelido é mesmo uma praga. Quando me anunciavam era assim, um elefante de forte. Pronto. Não precisa dizer mais nada, colocando o braço direito na posição de mostrar o bíceps. Ele riu. - Verdade porque temos esse assunto na delegacia também. Bem, vou embora, a esposa vai reclamar, sorrindo. - Sabemos como é. Ainda bem que sou solteiro. - Divorciado, Elefante. - Divorciado, isso. Uma pena. Quase mato aquela peste. Ele viu sorrir e piscar para o pequeno que fez o mesmo. E os dois, assim, na maior displicência olhando para ele. - O que aconteceu com a sua esposa, Elefante? Caiu na rede, por distração. - Desapareceu. Não agüentaram os dois e a gargalhada aconteceu. Ele não sabia o que estava havendo, claro, mas pelo continuar dela só podia ser mais uma deles dois. Ou não. - Bem, já vi que a situação vai se virar contra mim, quando se dispôs a olhar para a direita e esquerda e não viu mais ninguém, pelo menos perto. E a esposa fazendo sinal. Até amanhã, pessoal. E obrigado pela noite. Maravilhosa. A família agradece, apontando a eles esperando. - Volte sempre, tenente. E fique certo, vamos contribuir para solucionar essa questão, falou sério. Não é Elefante. - É sim, Catatau. - Está bem, colocando a mão à frente, automática que é no se despedir. Ele apertou a pequena e depois a gigante. E saiu, sorrindo. Os dois, quando se voltou, lhe pareciam um ar assim meio sorumbático, preocupação total. Acabou o riso e a brincadeira. A lista era séria, o roteiro e a situação também. E o desaparecimento dos dois, meninos, pelo que viu, mais ainda. Sempre motivo para esse eterno parecer dos pais. Filhos em perigo. - Só mais um assunto, voltando. Nas outras cidades? - Pois é, tenente, não ligaram os fatos ao circo. Uma morte na primeira, duas na segunda, uma na terceira, duas na quarta e essa agora, foram três não é isso? - E como sabe de todos esses detalhes? - Um repórter esteve aqui quando saiu. Pareceu-me até que esperou o senhor fazer isso para chegar e conversar. São dele os detalhes. Nós acompanhamos, eu acompanhei pelos jornais nas cidades. Ele olhou para o Elefante. - Mas você disse que não lê jornais, Elefante. - Pois é não é mesmo, tenente. E foi saindo sem dar explicações. - Não entendi! - Ele é analfabeto, tenente, falando baixo. - Não acredito! - Pois é e não consegue. Só o nome. - E como me entregou as folhas com tanta rapidez. Ele ficou observando o enorme sair e depois, de volta, para o pequeno. E a luz se fez. - Isso mesmo, tenente, excelente memória e atenção. Viu como me atendeu? Pois é, eu faço o maior esforço, mas não adianta. Ele não consegue. O nome, bem assinado, bem bonitinho e desenhado. E só. Leio para ele. Parece uma criança. E por isso se diverte tanto comigo. Agora falou bem sério. - Entendi. Bem, vou indo. Vou lhe dar retorno. E sei de que repórter está falando. Até amanhã, Catatau. Catatau? - Sigisfredo, não me pergunte por que, tenente. Pais. Melhor mesmo Catatau, rindo. - Entendo, rindo também. Mais um aperto de mão. Ele para a família e viu que o pequeno ia para a sua. Ou parte dela. Mãe e filha. As duas de mãos na cintura. Eu, heim, que carga esse pequeno carrega. *o* A reportagem sobre o circo saiu insossa, leu nos jornais, incluindo a propaganda de sua estada. Aliás, já há uma semana, anunciando. Comercial. Verba de publicidade, da qual se fez a alegria dos filhos e da esposa. Dobrou, guardou na primeira gaveta e atendeu ao telefone. - Tenente, oi, aqui é o Catatau. - Logo cedo, amigo. - Pois é o meu filho sumiu realmente. Ele se levantou, agarrando com força o telefone. - Como é que é, sério, eu devo acreditar que é sério? - Sim, o outro menino também. O Flecha. Os pais estão abismados com a situação. Não sabemos onde estão. Não voltaram como costumavam, lá pelas duas horas da manhã. E estamos ficando doentes. O senhor pode nos ajudar? - Com certeza que sim. Não se preocupe. - Estou tentando, tenente, já viu o que me cobram. Estou assustado. O meu filho não é de fazer essas coisas e outro garotão também não. Por favor, pode nos dar um retorno rápido. E quanto aos nomes? - Já passei adiante para que investiguem Catatau. Vou providenciar um registro de desaparecimento. Sabe que somente depois de vinte e quatro horas. - Sei tenente, sei muitas coisas que não precisaria. Vou aguardar. O pessoal não pode sair para procurar, aliás, a gente nem conhece muito bem as cidades. O Arlindo está fazendo isso, junto com o Elefante. Atualmente não trabalha, o senhor sabe. Acabou essa fase de homem mais forte. Bem, não precisava explicar. Eles estão na cidade. Foram confirmar a chegada dos meninos nos salões de festas e prostíbulos. Ele fala firme e pausado. Com certeza tem uma ótima leitura e vasto conhecimento. - Pode deixar Catatau, vou providenciar. Até logo. Ele falou o mesmo e desligou. Bem, pensou, realmente tem algo errado nesse circo. E resolveram aparecer ou fazer com que fosse realidade essa estranha conexão. Assassinatos? Desaparecimento? Intrigas? - Tenente, chamou o assistente, tirando um pouco do estertor que estava. O repórter, Felipe qualquer coisa quer falar com o senhor. Está na recepção. Pode mandar entrar? - Sim, claro, urgente até. Ele não entendeu, falou que sim no telefone e desligou. - O que foi tenente? - Sumiram os dois meninos do circo. Ele abriu bem os olhos. - O que foi, fala logo. - Eu segui os dois, tenente, foram para o centro, sabe pegar as meninas. - E porque não me disse. Ele entendeu. Afinal, tinha proibido e mandado dormir. Desobedeceu e, pelo visto, foi o correto a fazer. - Eu disse para o senhor. Estava desconfiado. Eles saíram os dois, arrumadinho para caçar o senhor sabe. Eram dez horas e quarenta e seis minutos. - Deixe os detalhes. - Foram ao Virtudes tenente. O senhor conhece. Ele sorriu. Para ele pode dizer que sim, para a esposa não. - Virtudes! Qual delas brincou. - É sério, tenente, e os vi sair de lá, mais ou menos meia noite e meia. Eles ficaram perto do circo e fui embora. Só isso. - Pois é, devia ter ficado mais tempo. No mínimo, gente de confiança deles os parou e os fizeram desaparecer. Caso bem estranho. De assassinato para seqüestro. - Seqüestro, o senhor tem razão? É isso mesmo. O Felipe adentrou no ambiente e veio direto. Como vai jovem, sente-se, apertando a sua mão. Tenente, o Felipe. - Já vi como vai, menino. - Tenente. Posso falar. O assunto é mesmo urgente. - E o que veio fazer. - Dizer que fiz o que achava que devia. Viu cabo, vi você com os dois meninos. - O que é isso agora, virou cúmplices, perguntou interessado sem dar tempo para o auxiliar se manifestar. - Sim, tenente, não, não, nada disso, falou rápido. Cúmplice do que? - Estarem seguindo as pessoas. - Tenente, eu faço sempre isso, sou investigativo e esse caso me passou bem forte pela cabeça e pensamento. Acho que tem alguma estória maluca nesse meio. - E qual é? - O senhor não sabe, pensei que o cabo estava vigiando justamente para saber. E quando o vi sair, ir embora e os dois meninos entrarem em uma van, bem, achei que estava tudo certo. Mas anotei e fiquei sabendo do desaparecimento deles. - E como soube, afinal, acabei de saber. - O tal de Catatau ligou para mim, logo cedo, no jornal. Vim direto de casa para a delegacia. - Vamos parar, o assunto está ficando sem controle. - É mesmo, tenente, por que diz isso. Olhe aqui a placa do veículo. Cinza, quadradona sabe, com a entrada de correr lateral. Importada. Ele leu, olhou para os dois, sim, pivetes na arte, nem trinta anos, alguns poucos anos de experiência que estavam lhe dando uma lição espetacular de acuidade e cuidados com a vida alheia. E com a própria, do repórter e com a teimosia do seu auxiliar. - Vá em frente, pesquise. - Sim, senhor, pegando o pedaço de papel, saindo e dizendo para deixar consigo que resolve de imediato. Eles acompanharam a ida dele porque foi resmungando qualquer coisa. E se voltaram, encararam e agora o que. - E agora, o que vamos fazer tenente. - Esperar. Que interessante não é mesmo. Você e o cabo. Combinaram? - Nada disso, tenente não combinou nada. Ele estava e eu fiquei de longe. Curiosidade e acertar o que tinha como dúvida. Eu avisei o Catatau sobre os outros crimes na outras cidades. - Estou sabendo. Ele sorriu. - É mesmo, ele contou? - Sim. - Tudo bem, tenente, espero não estar atrapalhando as investigações. Eu quero exclusividade, melhor, se for possível. Vai ser? - Está vendo mais alguém interessado no assunto? É sua, com certeza. Li o que viu e foi fazer no circo e não liguei para esses detalhes. Está boa a reportagem. Vai fazer bem para eles. - Ele me pediu o tal de Elefante e o tal de Arlindo. Gente persuasiva, falou rindo. Com aquele tamanho todo, o que poderia fazer, continuou na risada e no argumento. - É verdade. Senti na mão, brincou também. E viu o afobado voltando. E entregou o papel para ele. - Quem é, fale. - Pois é de um concorrente. Alugou o van na cidade. Já confirmei. Nome e endereço do hotel. Quer ver? Podemos ir verificar? - Você já fez isso, Felipe? - Não senhor eu não fiz. Só anotei e trouxe para o senhor somente porque ele me ligou o tal do Catatau. Senão, provavelmente, ficaria comigo e iria para o lixo. Sem conexão. Já que tem, tentando pegar o papel e ele evitando, já que não tem, continuou, vou esperar o senhor me liberar para terminar a reportagem. - É o único, pegando no papel. - Sim, senhor, eu juro. Não vou escrever nada enquanto não me liberar, tenente. Posso ir junto, por favor. Será algum caso de assassinato? Ele pegar os dois garotos e mandar matar? - Não, não acredito nisso. Vai ver farra de garotos. Esqueceram de voltar para casa. Estava rezando para essa possibilidade, é a verdade. Em menos de meia hora, na recepção do hotel. Perguntando, confirmando com o célebre sabe com quem está falando, não, mostrando a credencial e pedindo as providências. Nada oficial. Somente rotina. Sim, com certeza. - Sim, com certeza, tenente, eles três estão hospedados. - Três? - Sim, chegaram de madrugada, fiz o turno das três horas. Vou até o meio dia, tenente. - Não preciso do seu horário de trabalho, somente a informação, falou malcriado. Terceiro andar, trezentos e seis? - Sim, senhor. Quando deu as costas para o recepcionista, não viu a cara feia que fez. Mesmo com toda a obrigação de serem gentis, as pessoas não precisam jogar os seus problemas em cima da gente. No elevador e dois minutos de frente para a porta. Bateu. Nada. Bateu de novo. Alguém falou alguma coisa do lado de dentro. Escutou chegarem até a porta e abrir. Quando pensou em olhar para cima, desistiu, para baixo. Ali estava o meliante. - Quem é. Oi, tenente, como vai, passando a mão no rosto várias vezes. O que foi? Que horas é? O que estão fazendo aqui? Tem algum problema? - Quer parar de perguntar, garotão. Está desaparecido. - Eu, desaparecido. Estou aqui, tenente. - E não podia avisar aos seus pais. - É mesmo. Estou encrencado? - Comigo, não, só me deu trabalho. O que está fazendo, olhando para dentro. - Quer entrar, tenente, por favor. Eles passaram e ficou fitando os três, de baixo do seu tamanho. E saiu quando bateu a porta, correndo para dentro do quarto e depois para o banheiro. Eles ouviram bem a batida da porta e os resmungos. No mínimo, apertado. E o outro chegou também, fazendo o mesmo. - Estamos encrencados não é. O que foi e quem são vocês. - Tenente, abrindo a carteira. E mais um atrás, ele tentou ver e o cara fechou a porta. Pode se identificar, senhor. - Claro que sim, permite ir ao banheiro primeiro. Ele fez o sinal, ele abriu e fechou a porta novamente. O outro fez o mesmo, saindo da sala e em seguida o pequeno voltou e sorriu, já com o cabelo penteado e o roupão dobrado, parecendo uma grande saia. - Podem rir gente, não tem problemas não. Estou acostumado. Já viu isso, não tem roupão para crianças e quando tem, são enormes. O que posso fazer por vocês. - Está acompanhado. Só homens. - Ei, tenente, o que está pensando. Estamos garantindo as meninas, sabe como é. - Sei, todos no mesmo quarto. Ele fez um sorriso indistinto. Não confirmava nada. - Drogas? - Tenente, somos atletas. Não ingerimos drogas, a não ser essa que estão no quarto. O que foi? Meus pais! Minha mãe, não é? - Bem, o seu pai. Catatau. - Ele não é o meu pai, tenente. Só ela é minha mãe. - Entendi, bem, não importa. O que estão fazendo foi errado. E o que vão fazer agora, por favor, é ligar e acabar com toda essa confusão. Só saio depois que o fizerem. E não façam mais isso, de jeito nenhum, estão ouvindo. - Sou maior, tenente, minha mãe não compreende. - Estão bem, assuntos internos, como disse o seu pai. Padrasto. - Tio, tenente. - Tio? - Sim, tio. Algum problema? - Não, por favor, nada disso. Pode ligar, por favor. Ele não discutiu mais, pegou no telefone e ligou. Escutou a ladainha da mãe, no sim, sim, sim senhora, entendi, desculpe, sim, sim, sim e sim senhora final. Desligou. E riu. - Não sei como o meu tio agüenta. - Ele é seu tio por parte de pai? - Não, só tio. Casou com a minha mãe quando eu era pequeno, mas não consegui superar e a minha irmã sim. E o meu pai vai vir falar com o senhor. - O seu pai? - Sim, só aguardar. Esperaram. O garotão, Flecha, saiu e logo depois, arrumado o pai. De porte normal, simples, direto na atenção deles. E com uma cara estranha. Ou estranha seria a situação. Pai normal, boa estatura, um pouco mais baixo do que ele, tenente, simpático. Quando abriu a porta, viu as três meninas. Meninas. Ou maiores de idade. Ele fechou e encarou. - Pois não, levando a mão à frente. Já conheceu o meu garoto? - Sim, senhor. E o senhor porque fez isso. Não acha que deveria dar a informação para os pais. - Eu sou o pai dele, tenente. E tio desse menino. Bem, tio por afinidade. Já trabalhei no circo durante anos. Fui proprietário e depois perdi a franquia. - O senhor vendeu para o Elefante? - Aquele analfabeto? De jeito nenhum, não sabe assinar nem o nome. - Então, para quem? - Para o... para o anão. - Pai! - Anão, sim, não se fala diferente. - Eu também sou. - Não, você é meu filho e ele é anão. Acabou. - Pai, para com isso, por favor. Já acabou como disse. - Acabou o fato de defender a ele e a sua mãe. - Pai, por favor, não precisa falar mais nada. Assunto interno, tenente, como diz bem o meu pai, o outro. Fala sempre assim. Deixa, sentem-se, por favor. Qual o assunto, além do meu desaparecimento, o trouxe tenente. Fala direto, o filho tem razão. Ótima escolaridade e deve conseguir o que falou realmente. - Ficamos assustados com a possibilidade de ter sido seqüestrado. Ele viu, apontando o repórter. - Felipe, prazer. Nem se deram as mãos, não precisa, estavam sentados agora. - Muito bem, um grande mal entendido. - É mesmo? E quantas vezes saíram com o seu pai essa semana? - Hoje, somente hoje, olhando para o pai. Por quê? - E o senhor, há quanto tempo está na cidade? - Acompanho sempre o circo, afirmou categórico. - É, pai, e porque não foi nos visitar? - Não importa filho, não é isso que o tenente quer saber, não é mesmo? - Sim, quero saber o que faz. - Sou empresário. Tenho um circo igual. Concorrente. - Também franquia? - Já soube? É mesmo um linguarudo. Desculpe, é... bem, já viu que não nos damos bem. Ele me tirou a família toda, quando conquistou a minha mulher. Ela é uma chata, ranzinza e não agüentei reclamar de ser o que é. Ele conseguiu claro, é igual. Eu ainda a amo, não dependo da sua aprovação, tenente. - Ei, não coloque situações que não são verdadeiras. Não falei e não pensei nada. Estou querendo saber do senhor e não da sua família. Tenho uma também e respeito a todas. Entendido. Quero respostas. Se não falar agora, arrumo um mandado e o levo para a delegacia. - E qual a acusação? - Nenhuma, por enquanto. Não gosto de precipitar nada. Vai responder? - Não tenho nada a esconder, tenente. O que quer saber? - As últimas cinco cidades. Esteve com eles? - Sim. - E o seu circo? - Tenho gerente. Eles fazem sozinho. Já saí do palco há quinze anos, depois que vendi para eles. - E fazia o que? - Atirador de facas. Ele quase pula da cadeira, ou poltrona. - Era bom? - O melhor, tenente. Não tinha a frescura de jogar para os lados. Onde apontava, acertava. Ela foi a mais corajosa. Não se mexia, nem piscava. - Entendo, pelo temperamento dela. Ele começou a rir e voltou a se sentar. Ainda espantado com essa situação de ser fácil sorrir para eles. Família bem diferente. - Então, está satisfeito? - Vou estar quando me disser o que fez? - Não entendi! - Onde se hospedou e o que fez nas noites nessas cidades. Agora foi ele que se levantou. Nervoso. O que foi, ficou nervoso? Posso saber por que ficou assim? - Não preciso falar nada para o senhor, tenente. Vou pedir um advogado. - Não lhe acusei de nada. - Não sou analfabeto, tenente. Sei o que está ocorrendo com o circo. Eu a amo, ainda, como disse. Essas meninas, no outro quarto, são diversão. E não me venha com essa de fazer e acompanhar o meu filho no sexo. Não tenho o mínimo pudor, se quer saber. Ele vive longe de mim há quinze anos. Portanto, somos amigos. Eu o amo também, não faria nada que me afastasse dele. Eu acompanho e o que acontece na cidade. Como os crimes. Ele comentou que esteve lá e somei. - São bastante espertos. - Somos do circo, tenente. Antes matava um leão a cada dia. Agora, morremos como se fosse um a cada dia também. Então, preciso de advogado. Vai me acusar de assassinato. Não precisa perguntar mais nada, porque não vou responder. - Pai! - Não, nada de pai. E, tenente, se permitir, por favor, vou deixar as meninas irem embora. São maiores de vinte e um. Vou buscar os seus documentos. Válidos. Por favor, aguardem, afirmou. Ele ficou assim, como pediu parado. Esse pessoal é mesmo organizado. Parece que sabem com antecedência o que vai ocorrer. Elas saíram, vestidas, arrumadas, perfumadas e com aparência de namoradas, amantes, esposas ou o que fosse. Realmente bem esperto. Fechou a porta atrás delas, com o tenente satisfeito na vistoria, antes, dos seus documentos. Viu dois, dispensando o terceiro. - Vou embora, pai. - Isso mesmo. Deixa que eu me ache com o tenente. E peça desculpas, ouviu bem. Nada de brigar com a sua mãe. Ela tem razão. Errei mais uma vez. Escutou, dando um chute na bunda dele que, viu bem, não acertou, mas o moleque pulou e esfregou. Os dois riram, o amigo empurrou, amassando o seu ombro e chutando. Esse acertou. E ele devolveu coitada da canela do amigo. Entraram no quarto. Ele se virou e percebeu o olhar atento e inquisitivo do tenente. - Não quer mesmo responder? - Nada, tenente. Vou ligar para o meu advogado. Do circo. Não posso ficar no meio de confusão. Chega o primeiro que perdi. É sempre um escândalo. O pessoal não entende o nosso modo de vida, fazendo o gesto de chutar a bunda do menino. Entendeu? - Sim, entendi. É verdade, pelo menos acho que sim. É bem diferente viver desse jeito. Só que o senhor vive bem, em hotéis, nada do dia a dia. - Estou rico, tenente. Fiquei sim, por incrível que pareça. Não preciso mais. E quando digo que matar um leão antes e agora me matar, é porque sou diretor da associação que congrega, além dos proprietários, os seus ajudantes e empregados. Qual a dificuldade? Tenho uma vida exemplar. - Ótimo, levantando-se. Vou dar carona para os meninos. - Muito obrigado, tenente, levando à mão à frente e apertando. Forte. Atencioso. Coerente. Vou para a sua delegacia em dois dias. Ele apresentou o cartão e olhou diretamente, compreendendo. Vou ligar para o meu advogado, marcar e lhe avisar. Estou livre? - Vai ficar sim senhor. Já que, para mim, não tenho dúvidas. Ele olhou para os outros dois, calados chegaram e assim ficaram. O Felipe entregou um cartão para ele também, que sorriu. Novamente. Atencioso. Parecem que vive essas situações todos os dias. Os garotões saíram do quarto, arrumados, agora para serem caçados pelos pais preocupados. Vai ter muita manga para as camisas e reclamações deles. O menino correu, fazendo o gesto, pulou no sofá e direto para o colo do pai. E o aperto foi real e carinhoso. Deixou o garotão no chão, com a cara de verdadeiro orgulho. - Muito bem, até mais. Despediram-se e, falando pouco no caminho para o circo, o tenente ficou se perguntando se não foi de alguma maneira, manipulado pela família. Tudo muito certinho, tudo muito correto. Tudo bem explicado, mínimos detalhes. Dá para desconfiar. E não custa nada pesquisar, escolher o formato e tentar descobrir, se houver, alguma coisa fora do lugar. Quando se despediram, depois de avisar por celular da chegada, eles três riram dela, do pai ou tio, não importa, do gigante ameaçando dar a bordoada, o Arlindo colérico como sempre. Família. Estou fora, já saí, depois de poucas palavras para aliviar a tensão entre eles. - Estão entregues. Até mais tarde. Catatau, dona Catinha. E foram-se. Ótimo, não fomos assassinados. - Pode me deixar perto do jornal, tenente? - Com certeza, já sabe o que vai escrever? - Nada. Absolutamente nada. - Não vai escrever nada! - E o que posso escrever tenente, três pessoas que sumiram para fazer sexo? O senhor acreditou mesmo no que disseram? - Qual a dúvida? - Bem, o senhor não sabe se percebeu, mas o homem, não foi cabo? - O que foi ou não foi o que? - Bem, ele piscou várias vezes para os dois, para as meninas. Fiquei um pouco desconfiado. Se elas são assim, de programa, como podem ter toda essa intimidade. Eles riram depois dessa. Não, não é disso que estou falando. Intimidade, mesmo, dessas de você piscar e os outros sabem o que significa. E um primeiro dia, assim, só sexo, duvida que seja possível. Eu senti dessa maneira. O tenente percebeu nele essa verdade. Aliás, veio assim, desconfiado todo o tempo. Não viu as piscadelas, não pode dizer que sim. Mas o menino é mesmo esperto. Ou desconfiado demais, como ele. - Viu isso mesmo? Essa intimidade! - Sim, e não eram, tenho certeza, meninas de programas. Viu algum beijo de saída. Algum passar de mão, alguma intimidade e talvez, porque não, alguma safadeza? Viram? - Não, eu não vi. - Eu também não. - Aí está a minha teoria, tenente. Tem angu com caroço e grande nessa situação. - Foi tudo programado? - E se eles soubessem que estávamos vigiando? Pensou nisso? O Laércio pigarreou. - Fala, não faça mais segredo, fala logo. - Eu disse para eles dois que iria fazer isso, tenente. Vigiar. - Não falei, não falei. Você fala demais, Laércio. E agora? Se a sua teoria é correta, bem, estão todos de prontidão e programados para nos enganar. Por quê? Todos assassinos, ou conhecem os assassinos. Ou querem nos tirar de cima dele. Estão protegendo alguém que sabe quem são. E todos assim, programados. Combinados. Balançou a cabeça, direita e esquerda, até com um pouco de violência, prejudicando um pouco o bom dirigir e governar um automóvel, apesar da velocidade correta. E voltou. - Tenente, o senhor está bem? - Não vou falar mais nada e não vai me acompanhar mais, Laércio. Estragou, bem, talvez estragasse a diligência toda se eles são realmente responsáveis. E fez o sinal para ele se calar. Quando deixou o menino perto do jornal, destrambelhou. - Tenente, eu, tentando evitar. - Não fale mais nada, cacete Laércio, bem que avisei. Precisa de um repórter intrometido para nos ajudar no nosso trabalho. Assassinatos, eu bem que lhe avisei. Assassinatos, não é brincadeira. E vários deles. Viu a quantidade. E agora, de castigo, quero as informações de todas as pessoas que trabalharam no circo. Da relação que nos passaram. Pensando bem, nos tiraram de estar fazendo isso agora. Não, pode parar senhor tenente, falou para si, balançando novamente a cabeça. Nada disso. Sem especular, argumentou. Estacionaram no pátio e direto em sua sala. - Tenente, por favor. Ele olhou feio de volta, resolveu baixar a cabeça e foi fazer o que lhe pediu. E procurou fazer rápido, com as cinco folhas na mão. Trabalho hercúleo, mas vou fazer. E bem, muito bem, batendo com os dedos para se acalmar. Do dó até o sol, com a mão direita e retornando, pensando e fazendo o gesto. Sem barulho. Parou, digitou todos os nomes, um a um para a sua folha e computador e iniciou a pesquisa deles. De todos eles. Levou mais de uma hora para todos e vai aguardar as respostas. Não viu mais o tenente na manhã e não se importou com essa pequena discrepância. Se tiver outras diligências a fazer, ficou de fora. Duas horas e meio depois, perto do meio dia, a primeira resposta da delegacia de uma das cidades. Quem morreu, quando, de que maneira. Era uma das da relação. E trabalhou com eles sim, artista de circo. Mas não fazia parte dela. Afinal, era ou não da relação. Outro nome. Bem, deixa pensar. Mandei nomes, todos certinhos, conferiu e sim, de acordo com a relação. Veio uma primeira resposta, outra pessoa, trabalhadora e artista circense, pelo visto a primeira vítima. E do mesmo modo de morte. Só que não foi o que pediu. E estranhou. Ligou para lá. - Olá, cabo Laércio. Posso falar com quem atende aos colegas. - Um instante, por favor. Qual a delegacia? Ele citou, deu o seu número e pediu para quem tinha lhe enviado a mensagem através do computador. Pediu um instante e uma moça atendeu. Pela voz, suave, poderia ser sim. - Olá, Patrícia. Quem fala? - Laércio, como vai. Desculpe, vou direto ao assunto. Colega? - Sim, soldada, como vai. Investigação interna. - Muito bem. Estou confirmando o recebimento de uma mensagem. Mandei vários nomes, de uma lista de até dois anos atrás e você me enviou a informação sobre uma moça que morreu nas mesmas circunstâncias. Mas eu não lhe informei nada disso. Como pode saber? - Recebemos comunicado sobre as três mortes na sua cidade. E essa era uma que não temos, ainda, nenhuma informação e sobre o motivo do crime. Achei, até por presunção, que poderia lhe ser útil. - Ela era artista circense? - Sim, com certeza. Morava na cidade, melhor, era da própria cidade, saiu pelo mundo e voltou. Era casada e mãe de três filhos. O marido está inconsolável, ainda. Mesmo depois de seis meses da morte dela. Vem todo o dia, exagero, vem sempre exigir a nossa ajuda e definição. O que pode me adiantar? - Nada, estou iniciando. Não temos nada ainda. Obrigado. Vou desligar. Qualquer coisa eu lhe envio de volta com informações. Obrigado mesmo, Patrícia. - Sem problemas. Desligaram. Ele encafifado. Então, a primeira, pelo visto, vítima, era artista circense também. Casada, pelo que entendi aposentada. Pegou o número do documento e foi ver as possíveis passagens pela polícia. Somente o cadastro normal, nada que a desabonasse. Morreu, por enquanto, de maneira misteriosa. Ele se aprumou na cadeira novamente. Hora do almoço. Saiu, comeu um lanche rápido na esquina, na padaria e retornou. O tenente já estava de volta. E não tinha lá aquele rosto simpático. Entrou no banheiro, saiu depois de cinco minutos. O rosto, bem, continuava o mesmo. Melhor enfrentar e acabar com a agonia. - Boa tarde tenente! - Então, o que conseguiu até agora? - O senhor foi aonde? Não respondeu e ele se arrependeu de ter perguntado. Eu consegui tenente, prosseguindo, com o outro por cima dele olhando os papeis. Uma mulher, morta do mesmo jeito. Na primeira cidade. Uma colega nos passou. Só que não faz parte da relação. Eu explico. Ela recebeu um comunicado sobre as mortes. - De quem? - Não sei tenente, não sei ainda. Vou verificar se foi daqui ou de outra cidade. Mas ela me enviou depois que fiz o que me pediu. Só os nomes, sem dizer mais nada. Como ela associou, não sei. - Muito bem. Esse assunto está ficando encrencado. Mas tudo encadeado. Respostas sem perguntas e perguntas sem respostas. Bem interessante não acha não? Não acha, falou de imediato quando ele pensou em responder. Não acha nada, Laércio, ouviu bem! - Não acho nada, tenente. Não procuro e não acho... parou quando o tenente fez o gesto para acabar com a lenga lenga. O que faço então continuou depois de segundos olhando para o gesto dele. - O que lhe pedi. Aguarde de outras delegacias. Sem mencionar mais o que já foi feito. Pelo visto, todos sabem de tudo e nós não sabemos de nada. - Sim senhor. E de volta a atenção para a tela do computador. E o dó até o sol e do sol até o dó. Passando o tempo, ele passando e o tempo também. Nova mensagem, depois de exatos vinte e cinco minutos. Da outra cidade, dois assassinatos da mesma maneira que o primeiro. E fazendo alusão ao pedido da primeira cidade. Ele pensou bem, o que poderia estar havendo, todos está conversando com todos e vai sobrar para mim. - Tenente, tenente, por favor. Ele se levantou e foi ver. Ele apontou. No papel, nada de nomes que pudessem ser, sequer, semelhantes. Nada com nada. Mas ali, na tela, tudo com tudo. Informado as descrições e com fotos, para arrematar de vez. A mesma condição de morte, os olhos abertos e o sangue por baixo. Nada de sujeira na frente. Só por baixo. Ele pensou e falou. – Desculpe tenente, mas será que elas foram mortas com a roupa para cima e depois vestidas de volta? - Como é que é? - Assim, olha, tirando as roupas, para cima, foram mortas e depois colocadas de volta no mesmo lugar. O sangue só sujou atrás. Que coisa estranha. Não lhe parece? - O que me parece, Laércio. - O modo como estão. - Fala logo, porra, está me deixando nervoso. - O senhor disse que não era para falar nada! - Mas se começou, termina. Parece gago, vai, falei bobagem. Fala logo. - Elas foram mortas, por trás, se assustaram e levaram a facada. Assustaram-se, porque tiraram a sua roupa, para cima, espetaram por baixo, faca ou estilete e colocaram de volta. Deitaram no chão e foram embora. Duas pessoas, com certeza. - E como pode ter tanta certeza. - A primeira coisa que faria seria segurar a saia, tenente, instintivo de proteção feminina. Ele parou de falar, o tenente observou a relação do que estava dizendo com o que estava vendo na tela e nas fotos. Alguém por trás, provavelmente conhecido, claro, não teria como chegar correndo e fazer do modo que estava falando. Conversando. O vestido para o alto, junto com ele os braços. Ela aterrorizada, a facada em baixo, segura sem poder gritar pela dor intensa e amordaçada, praticamente pelo abraço. O sangue começando a escorrer, colocou de volta o vestido no lugar e descansaram o corpo já quase inerte no chão. Pronto, terminado. E dois, duas pessoas, saindo do local. Em menos de dois segundos se faz essa operação. Se tiver prática. Se souber manejar bem a faca, como ele disse. Ou um bom bisturi, como o menino que vai ser médico. Ou com uma ótima estocada como ele mostrou, perfeitamente, quando brincou. O Catatau. E alguém forte para segurar por trás. - Tenente, está comigo? - Heim? - Está comigo, tenente. - Estou, estou pensando na sua teoria. E para que todo esse trabalho? - Se estiver certo, tenente, um ritual. Alguém está mandando mensagem para outros sobre esse formato. Sabe uma mensagem criptografada, como no computador. Para só quem entende ou sabe o que significa. - Porra, Laércio, agora abusou demais. Assim não dá, batendo na mão dele, forçando a parar o dó até o sol e do sol de volta ao dó. Sem machucar. Mansamente. Ele parou envergonhado. Manias e manias. Todos as temos. A dele, do dó até o sol e voltar. Grande coisa. Mas incomoda, pelo visto, quando outros estão pensando. Como o tenente, por sinal, com o mesmo rosto de quando chegou. Para nenhum amigo gostar. E talvez, pelo entender dele, piorou quando uma pasta vermelha, jogada na mesa dele, à sua frente, trazendo algum relatório do Instituto Médico Legal. Bem original. Vermelho e sangue. Mas assim se chega logo ao veredicto. O tenente abriu, manuseou duas folhas e as fotografias. Um dia somente. Caráter de urgência o trabalho. Afinal, precisa liberar o corpo para o enterro. Suspenso por enquanto, mais um dia somente. E analisou, procurou seguir, pelas seqüências das fotos com o que estava escrito. E olhou para ele, à sua frente, abrindo mais os olhos e o Laércio ficando preocupado. - O que foi tenente. Ele ainda esperou um pouco para repetir o mesmo. - Eu não sei não, acho que você é o assassino, Laércio. Ele não achou nada engraçado. Nada mesmo e o rosto provavelmente disse o desagrado, com o tenente não achando graça também no que disse. Um mal estar total. Venha ler e ver, Laércio. Foi. Viu, leu, conversou bem, apontou o que achava correto e pronto. Dois assassinos. E, conforme a sua teoria, bem próxima da realidade. - Primeiro, falou o tenente. Quem fez é conhecida da pessoa que morreu. Três nessa cidade. Comece por aí, veja as outras duas. Um homem e uma mulher. Se forem artistas circenses, estamos no caminho da verdade, Laércio. Rápido, fechando o relatório, quase brutal em tirar da mão dele. E Laércio. - Sim, tenente. - Parabéns, menino. Vai para a sua ficha, fique certo. - É mesmo, acertei? - Vamos ver. Faça logo. Desculpe o mau jeito, falou sem esperar a reconsideração, saindo direto para a sala do delegado. Entrou e se fechou nela. Vinte minutos depois saiu e ele já lhe fazia sinal. Sorridente. Quando chegou falou assim mesmo. - Sou mesmo o máximo, tenente. Fechei com tudo. Só olhar e marretar nessa turma toda. Ou alguém do circo também. Fechei com tudo, repetiu. O tenente leu da terceira cidade e mais o relatório das duas outras mortes. Bem, o padrão correto. A mensagem, pelo visto, afirmativa. E o que estava dentro do relatório poderia afirmar tudo. Só falta quem fez. Dois. Um grande e um pequeno. Homem ou mulher. Dois homens ou duas mulheres. Quem sabe. Catatau, Catinha e companhia. Ou quem conhece muito bem. - Tenente, desculpe. - Sim, Laércio. - Não foi fácil demais. Ele simplesmente jogou a pasta na sua mesa. - Fácil demais? - Tenente, um dia, o cadáver nem foi para o cemitério. - Como assim um dia. - Depois que resolvemos juntar os fatos e as mortes na nossa cidade, sim. O repórter levantou a possibilidade e fechamos, com os dados que conseguimos, em um dia. Não foi fácil demais? - O que quer dizer? - Que foi tudo armado para acontecer dessa maneira. Eles nos ludibriaram, tenente. Eles sabem mais do que querem mostrar. - Não entendi, Laércio, porra, parece novela as suas falas. Começa e termina. - Eu ainda acho que fui manipulado por minhas próprias dificuldades de ficar calado. E o repórter, se for do mesmo tipo, também. - Não entendi novamente, Laércio, porra, fala logo. - E se ele fez menção disso para a gente ficar nessa linha de investigação. Já pensou? - Está muito misterioso para mim, Laércio. - E para mim também. Muito fácil. Um dia e tudo esclarecido. Muito fácil mesmo, resmungou. E, pensando bem, o tenente achou que ele tem razão. Quando finalmente terminaram as elucubrações a respeito do assunto, resolveram levar ao conhecimento do delegado. Tudo explicado nos mínimos detalhes. Agora, aguardar a decisão. E ela veio, depois de cinco minutos de análise. - Sim, eles fizeram de propósito. Chamaram a atenção para cima deles com essas evidências. Primeiro não saímos de jeito nenhum. Depois o desaparecimento do menino. Mentira. Terceiro, a farsa do hotel. Tem razão, tudo armado. E talvez o esperto do repórter também. - Será não me pareceu, delegado. - Aí que está, dê uma última olhada nele. No que faz realmente, se é repórter. - Isso tem certeza, já o vi várias vezes. - Durante os crimes? - Durante os crimes, pensando, sim, durante os crimes. - Viu Laércio, confirme o garotão. Veja de onde ele vem e se é realmente repórter. Ouviu. Veja se é repórter, não que trabalhe em jornal. E há quanto tempo. - Sim, senhor. Entendi delegado. Dá licença. - O que é isso? - O bilhete do van que disse que o outro alugou. - Foi ele que falou assim. Ele que consultou? - Porra, não fui tão enganado como agora. Veio com toda a informação. Vou matar o cara, delegado, se ele fez isso comigo, vou matar o cara. - É mesmo. Vai, deixa de bobagem. Espere o Laércio voltar com a informação e cai de pau em cima da turma. Literalmente falando. Se precisar de mandado para prisão, só me ligar. Quer ir com mais alguém, para garantia, já que disse que eles são muito família. Pode haver briga e confusão? - E como saber. Pelo visto tudo dentro da lei. Organizado e arrumado. E bateu com a mão na testa novamente. De novo. - Vai ficar se batendo agora, tenente. - Estou batendo, porque os meus filhos foram enganados também, rindo. Que gente mais maliciosa, incrível. As entradas e tudo o mais. Analfabeto, falando do jeito que falou. Mas sou mesmo uma besta. Vai ver ele é o verdadeiro dono. Analfabeto, repetiu e continuou a rir. - Endoidou tenente. - O senhor já ouviu analfabeto, por mais atenção que tenha nas coisas, saber, olhar, separar e entregar documentos, delegado. - Não sei o que está falando e não me interessa. Já descobriu que foi enganado. Agora, me dá licença que preciso trabalhar. Vai lá, pau neles. Se precisar de ajuda, leva mais gente. - Não tenho nada contra eles, delegado. Aliás, eles é que estão propiciando para que eu ache alguma coisa. Só não sei se será contra eles. O Laércio entrou. Com que cara eu vou. Apalermado. - Um mês, tenente, o moleque trabalha no jornal um mês. Veio do interior. Adivinha de que cidade. - Da primeira. - Bingo, na testa. Ele fez isso também, bateu de novo nela. Vamos lá, quando viu a atitude dele, saindo da cadeira, quase pulando e o delegado rindo. Ele fechou a porta devagar, com o delegado sorrindo para os dois. E foi atrás. Quando viu pegar na segunda arma, colocar no calcanhar direito, bem, achou e fez o mesmo. E puxou mais dois, em outro carro, não oficial, para acompanhar. Três horas e quarenta e dois minutos, saíram da delegacia. Para onde? - Tenente, para onde vamos? - Primeiro no circo. E ligue para o repórter, diga que temos a reportagem para ele. Com certeza vai estranhar, mas não vai fugir. Ou esclareci tudo ou estou realmente totalmente por fora de como esclarecer casos complicados. Como disse esse, em um dia. Para nós. Porque para eles deve estar já há anos acontecendo. Vamos logo. Quem mais chamou. O cabo apontou os dois, investigadores que chegaram apressados, armados do mesmo jeito. - Olhem bem, nada de violência. Se estiver certo é só para constatar, entenderam? Eles nos chamaram a atenção para alguma coisa que está acontecendo e não sabem como parar. Ou estou muito burro, fiquei assim. Nada de puxar arma antes que eu faça. Se estiver em perigo, vou saber. Vamos lá. Já ligou? - Estou tentando, tenente. Ele me deixou um cartão também, rindo. Eu sou uma besta mesmo. Com celular. Ele atendeu, pondo a mão no bocal. - Olá, quem é. - Laércio, como vai? - Oi, cabo, como vai. Alguma coisa, novidades perguntou assim mais eufórico do que o normal. Ou pareceu. - Sim, estamos indo no circo. Espero você lá. Tudo bem? A estória vai ser boa, se o tenente estiver certo, com ele dizendo que era assim mesmo para falar. Agora desligar foi a ordem. Isso mesmo confirmou, até mais. E desligou. E agora? - Pode deixar, talvez seja o primeiro a chegar. E partiram em dois carros. Um dele, tenente e o outro de um dos investigadores. Quando chegaram ao circo, sempre em movimento, foram entrando e cumprimentando o pessoal. Sem alarde, devagar, posicionados os dois um do lado de fora, o outro acompanhou até a lona e eles dois, em definitivo dentro dela. E a turma treinando, a correria do Catatau em cima do outro dando bordoadas. E parou de imediato quando os viu. Veio até eles. - Olá, tenente, colocando a mão à frente, como vai. Olá, menino. E apertou efusivamente. - Como vai, Catatau. E o menino, o Mini um apanhou da mãe? - Ele não gosta de ser tratado de Mini, tenente. E a mãe não gosta de quem o trata assim, rindo. A menina não tem problema. Diz que é a Minie, sabe a ratinha. E que a mãe não gosta também. Difícil conciliar não é mesmo? - Mais mentiras, Catatau. - Não entendi tenente. - Isso que acabou de dizer é verdade. Não são seus filhos, são realmente, não são dela ou de outra pessoa. Um verdadeiro emaranhado. - Tenente vai sentar no refrigerado. Parece que tem muitas coisas para me contar. Foi rápido. - Foi mesmo. Afinal tudo mastigado. Só precisava correr a trilha. Ele sorriu, olhou para frente, de novo com eles, abrindo a lona para passar, sorrindo e continuando a andar para o container. Os dois, Arlindo e o Elefante só observando. E o tenente e o Laércio atentos aos movimentos. E os seguiram à distância regulamentar de segurança. O pequeno abriu o compartimento, entrou e depois os dois. Eles ainda viram os dois investigadores atentos também. Pronto. Fechado e a batida em seguida, evidente. - Podemos entrar Catatau? - Como não, tudo bem tenente? - Como não, repetiu letra por letra, arremedando. - Bom, vamos escutar, quando os dois sentaram-se nas outras cadeiras. Ele viu que tinha exatamente cinco e riu novamente. - O que foi agora, tenente, perguntou o Elefante. - Está mais esperto, Elefante. Não se consegue mentir ser analfabeto falando dessa maneira que faz. - Um ponto, tenente. - Não se pode fingir que se assusta com a brincadeira do Catatau, quando sabe o que vai acontecer. Eles fingiram surpresa. A calça estava com o cinto fechado, apesar do gesto que estava caindo. - Dois pontos, tenente. Você Arlindo, não sabe mesmo brincar direito. E riu acintoso. - E finalmente você, Catatau. - Oba, agora é comigo. - É, além de mentiroso, assassino. E não faça gestos bruscos, por favor. - Eu, assassino. E começou a gargalhar. Muito. Tenente, eu fiz tudo para o senhor nos ajudar nessa empreitada. Sabe há quanto tempo morre gente da nossa espécie, como disse agora. - Epa, não disse nada da sua condição de anão. - Pois não estou falando sobre isso também. Gente de circo, tenente. Já está acontecendo há mais de seis anos, seis anos, tenente. E só agora o nosso menino conseguiu que algum de vocês, falando de uma maneira como se sentisse asco, deram atenção. Agradecemos sim, fizemos tudo em outras cidades e nada. Todos que morreram até agora, nesse ano, foram assim, trabalhadores de circo. Pode me dizer que eu fiz para me acusar desse jeito. Ouviu, Arlindo, Elefante, ele é esperto pela metade. - Olha aqui, Catatau, não vai mais brincar de gato e rato comigo, está ouvindo. E fiquem sentados vocês dois. Ameaçou pegar a arma e eles sequer tinham feito qualquer movimento. E bateram na porta. - Posso levantar para ver quem é tenente. - Não sabe não? - Sei, rindo. Sei sim. Oi, querida, está tudo bem, gritou. Ela bateu de novo, mexeu na fechadura. Só abre por dentro ou com a chave. Está tudo bem, querida. - Catatau, abra já. Quero saber o que está acontecendo. Quem são esses dois aqui fora? Estão com armas na mão nos ameaçando! Ele pulou da cadeira, aliás, os dois. Abriram a porta. Ela rindo, forçou e entrou. Ele olhou para fora. Nada. Os dois estavam distantes, do mesmo modo que os viu antes. - Olha aqui, tenente, o Catatau só brinca, eu não, e vocês dois também. E se derem risada, eu mato todos com a minha mão, estão ouvindo. - Ou com faca e estilete, dona Catinha. Foi a senhora então! - Olha aqui, tenente, concordo que eu ameaço e ameaças todas, brigo e esses três pestes me aborrecem o tempo todo. Não sou dona desse lugar por ser conivente demais. - A senhora é a dona desse lugar? - Claro que sim, eu e o meu marido. - Seu marido, apontando o Catatau. - Ele, rindo, ele é meu irmão. - Puta que pariu, não sabe de mais nada. Desculpas pelo palavrão. Eles gargalhavam agora. - O seu marido é o outro, aquele do hotel? Bateram na porta. Ela abriu. Ali estavam, o marido, rindo, o repórter rindo e os dois putos da vida. Totalmente. - Olá, tenente, não tem muita gente aqui dentro não, Catinha. Apertou, abraçou e beijou na boca, assim, na frente dele, ainda no segundo andar da escada. - O que foi agora, tenente. - Eu não estou dizendo nada, já lhe falei antes. Aquela estória toda, tudo mentira. - Três, falou o Catatau. - Posso saber por que toda essa palhaçada. O que ganham afinal? - A sua atenção, do delegado e da força policial para acabar com essas mortes, tenente. Por favor, imploramos. - E como posso acabar? - Com a relação que o analfabeto lhe passou. Ele fechou a mão e ameaçou e riu depois. Todos riem, até nos assuntos difíceis como esse. - Vou embora, dá licença gente. Vamos Arlindo, a nossa seção acabou, fazendo o esforço, passando por eles, empurrou de leve o patrão, ou o que seja e saíram. O menino também, pulando no colo do grandão. - Nosso filho. - Seu filho e da Catinha? - Não, não dela. Da minha primeira esposa. - E quantos anos ele têm. - Vinte e oito. - São irmãos, apontando os dois. - Sim, irmãos. E ele é a paixão da minha vida, ela afirmou. - A estória da faca? - Sim, ela ainda é a única que confia. Gostou da mentira, tenente, acreditou mesmo que eu odeio esse anão nojento. Ele ameaçou mão direita fechada. - Não sei mais o que pensar, essa é a verdade. Ou a mentira que contaram. Não sei mesmo. O que estou fazendo aqui, afinal. Vimos essas discrepâncias entre o que lemos no relatório do legista e vocês. Tudo muito estranho. - E o que leu foi... - Não posso dizer mais do que isso. - ...foi que duas pessoas matam. Uma segura e a outra matam. Eu sei. - E como sabe Catatau. De onde vêm as suas informações? - Tenente, há anos que isso ocorre, já lhe disse. A pura verdade. Tem gente querendo acabar conosco. Com o nosso circo, com a nossa família. Não sabemos quem é. Não somos policiais. Pedimos a sua ajuda por isso mesmo. - Então o circo que tem é esse. - Sim, é esse e mais dois. Por quê? - Por que eu quero saber, ora. Não sei mais para onde devo ir e o que fazer. E se essas mortes continuarem vou ter que prender alguém. Um de vocês, que pelo visto conhece muito bem toda a tramóia. - É isso que pensa tenente. Um de nós, ou dois, está fazendo e ganhando o que, afinal. Prejudicar a nós mesmos. Somos uma família, tenente, já lhe disse várias vezes. - E quem prejudicou, em algum momento. - Só se foi quando adquiri o circo, tenente. Só se for e lá se vão quinze anos. Minha ex-mulher esquece, o menino está sempre com ela. Nós temos um bom relacionamento. Fizemos um bom acerto na separação e no divórcio. Como lhe disse, estou rico. O menino está sempre com ela, mas a maior parte do tempo está comigo. E a minha filha também, só que fica mais com ela. Quem de nós pode estar querendo prejudicar. Quem, tenente. - E como posso saber. Será que vai continuar? - Bem tenente, não sabemos. Estamos tentando acabar com isso. Agora sim, temos alguém tratando, seriamente, com o nosso caso. - Do jeito que dão risadas não me parece muito sério, apesar do assunto escabroso. Matar por vingança. Matar para se vingar do que afinal. Antigos parceiros. Ele parou um instante. Antigo parceiro repetiu. - Não, não tive parceria nenhuma, não prejudiquei nenhum herdeiro, não roubei nada de ninguém, tenente. Fizemos pela família, já afirmei. - Tenente vou sair também. E Catatau, não brinque, está me ouvindo? Beijou o marido com carinho e saiu, agradecendo novamente. Fecharam a porta. Ele de um para outro. - Pensei seriamente que era verdade. - Pois é, sou assim e a amo de paixão, falou ele da irmã. - Eu também, eu também. Ela é ranzinza, sim, com certeza. Não gosta de ter tido os filhos como são, certíssimo. Mas é mulher, quis engravidar e eu não poderia saber se seriam normais, como se diz. Ela sofreu muito. Achou que sim. Mas não foi essa a razão de nos apaixonar. Não escolhemos tenente. - Não precisa justificar, por favor, não é esse o assunto que estamos conversando. Então, Laércio, de volta ao zero. Só que agora, de olho nos visitantes. Precisam contratar um segurança. - Mas nós não estamos morrendo, tenente. A coisa não é conosco. - Então é de alguém de dentro, outra explicação não existe. - Está bem, faça os seus relatórios e as suas investigações. Vamos estar aqui até o outro domingo, tenente. Seis semanas, é o máximo que ficamos. - Está bem, vamos agilizar. E se for alguém de dentro da companhia? - Prenda-o, tenente, apesar de achar impossível. Prenda-o para sempre. Com certeza é um animal. E não temos mais nenhum enjaulado em nosso circo há muitos anos. - Mais uma questão, disse que comprou o circo há quinze anos. As crianças, o menino mais velho com a Catinha tem dezoito anos, foi o que disse. - Quatro, citou o Catatau e todos prestaram atenção nele. - Pois é, fui amante dela, me apaixonei no primeiro dia em que a vi, correndo atrás desse palhaço nojento, fazendo com que ele fechasse o punho novamente. - Não acha que o ofende falando assim. - Pode parar tenente, não me ofendo de ser chamado do que sou. Nojento e anão. Então, perdeu essa. Nunca vai nos tirar do sério por esse assunto. Perdeu, nisso perdeu. - Bem, pelo visto terminamos. Vamos, Laércio, tiro na água. - Sim, senhor. - Conseguiu falar, garotão. Mesmo provocado ele sorriu levemente. Está em dúvida também não é? Sempre o Catatau. - Sim, senhor. Está me parecendo tudo orquestrado. Talvez mais mentiras em cima de outras mentiras. Uma peça de teatro bem orquestrada. Bem, o tenente não esperava a reação dos dois. - Acha que somos crianças, garotão, para afirmar dessa maneira que fez, falou o marido. - Não senhor. Não acho nada, como o meu tenente me diz toda hora. Não estou reclamando, tenente, mas ficou tudo assim meio no ar. Se eles têm tanto interesse em acabar com tudo e já faz seis anos que ocorre, porque não tive nenhuma informação das outras delegacias? - Cinco, citou o Catatau. - Quer parar de enumerar, por favor. Diga a sua tese Laércio. - Eles sabem quem fez e faz. E estão protegendo, jogando para fora, vamos nos perder em novas e longas diligências e esquecer. Algum fanático ou doente aqui dentro está fazendo isso. Qual a melhor maneira de esconder? Deixar no telhado. Ninguém olha para o telhado. - Seis, citou o Catatau. Ele, o tenente, se enfezou. - Olha aqui, se disser mais um número, não vai gostar de tomar certas providências. - Desculpe, mas o garoto é inteligente, o que posso fazer? - Não percebe que está indo contra tudo que argumentaram. Se ele estiver certo, for outro grupo de mentiras, alguém aqui dentro é o culpado. - Não vou citar o número, pode me bater, mas eu pensei tenente. - E o que pretendem fazer? - Ter certeza de quem é. Como podemos acusar alguém da família? Finalmente, Catatau. Espero que não seja você e o Elefante. Ou a Catinha e o Elefante. - Quer parar, por favor. E o senhor, afinal, é ou não casado com a Catinha. - Claro que não, tenente, não viu como se beijaram? O senhor está realmente distraído. E ele, Laércio, bem atento aos movimentos, aliás, como pediu o tenente. - Pensei somente, tenente, só pensei, procurou se defender o Catatau. - Vamos embora. Senão vou cometer um assassinato. Vamos, vá à frente. Eles não estão armados. E olhou para o Catatau que fez com o polegar. Dizendo o número em pensamento com certeza. Idiota, pensou. Saíram, bateram a porta. E os dois investigadores, de longe, de dedão para cima. Eles dois, olhando a todos se arrumando, fazendo alongamento e correndo para exercitar. Passaram de volta no picadeiro. Nada demais. Os voadores treinando com a rede. E passaram, logo depois da entrada, na situação saída, a turma arrumando os apetrechos para venda. A maçã do amor e companhias. Mais uma festa. Muita alegria. Mas eles estavam saindo é com a pulga atrás da orelha. Que merda de situação. Mais e mais mentiras. E a última olhada para todos antes de entrar no carro. - Não vai haver mais nenhuma morte nessas condições, entendeu bem Laércio. Quando chegar à delegacia, dois deles vão ficar de campana. Permanente. Na minha cidade não vai acontecer mais. - Sim, senhor. Desculpe tenente, pelo que falei. Eles se beijaram de leve. Não são casados. E o menino, o repórter, não tem o nome dele. - Entendo. Mais uma. Vamos repassar tudo. Como disse, angu com muito caroço. E vamos tirar todos eles agora. Questão de honra pode acreditar. - Sim, senhor. E mais não disse. Não precisa. Mais do que isso impossível. *o* Chegaram à delegacia, apesar de tarde e resolveram recombinar tudo. O que pensavam o que achavam, o que se podia ter como alguma coisa para trabalhar e, principalmente, destilar o ódio de terem sido manipulados. Quando puseram as armas em cima da mesa, com estardalhaço, os outros dois, chegando à seguida, estranharam a atitude. Pareciam gêmeos. - Eu avisei tenente. Eles se dão de espertos. Eu ainda acho que sabe, sim, quem é. Estão com medo de dizer, ou melhor, com medo de terem a certeza. Haverá grande tristeza no grupo, na família, como chamam, quando descobrirem. - Entendi, entendi, largando tudo e indo para o banheiro. E lá dentro, a turma toda escutou os barulhos, não os tradicionais, mas sim, com certeza, os gritos de puro ódio. E saiu leve, meio cabisbaixo, mas refeito. E pegou na pasta novamente. Ninguém disse mais nada. Foram saindo de leve e o Laércio na sua mesa. De olho nele e na atenção, demasiada até, em cima dos relatórios. Ser chamado à atenção por ele, diante dos outros, deve ter sido o pior. Mas não falou nada. Por essa situação é que o Laércio se preocupava mais. - Tenente. - Não fale mais nada, Laércio. Não estou aborrecido com você. Estou lendo. Vá para casa. E obedeça dessa vez. - Sim senhor. Estou saindo. E deixei anotado, aqui em cima, apontando, as minhas anotações. - Se anotou só podem ser suas anotações, falou bravo sem levantar a cabeça, sequer para olhar. Ele saiu mais cabisbaixo ainda do que o chefe. Despediu-se do delegado. Sem mencionar o estado de ânimo do colega, professor, instrutor e tudo o mais que é possível dizer sobre um superior. Mas ele foi mais feliz na análise. E talvez por isso, bem, pode se prejudicar. Mas afirmou que iria positivo para a sua ficha. Se ficar puto, venhamos, pode ser com sinal negativo. Nada não, estou pensando mal dele. Não merece. Ainda passou por perto na volta e saiu finalmente. Nem bem fechou a porta, o tenente, rápido, levantou-se e foi até a mesa dele e pegou as anotações. E leu, com todo o interesse. E devolveu, marcando a hora para ele saber que leu em seguida. E sorriu. Vou aprender a sorrir também, seus bestas. Ele tem razão. Acertamos. Só não vimos o que eles não queriam que víssemos. Mas agora pegamos seus safados. - Até amanhã, delegado, falou abrindo a porta e já fechando quando viu o sinal. Sim? - O que foi com o menino? - O Laércio, nada não chefe, ele acertou todas. Só não quis deixar de bola muito cheia. É mesmo inteligente. Burro sou eu. Até amanhã. E com certeza, de amanhã não passa a solução dos Mini. - Solução dos Mini? - É isso mesmo, rindo. Solução dos Mini. Vai saber. Vou embora. Cuidar da família. Chegam de assassinatos e outras malandragens e estupidez, delegado. Fique firme no plantão. Qualquer coisa, por favor, não ligue para a minha casa, fechando a porta. - Engraçadinho. Vou lhe dar um gancho, sem vencimentos. Ele abriu de novo, dedão para cima e fechou. Sorriu e saiu. Direto para casa. E com a solução na cabeça. Na manhã, sempre gloriosa quando o sono é bem colocado e afirmado. E na chegada na delegacia o esperto já esperando por ele. - Vamos de manhã, tenente. Eu vi, apontando. O que o senhor achou? - Achei, tem razão. Parabéns! - Eles vão gostar? - Com certeza que sim. E acaba de uma vez por todas essa lambança. - Lambança? Ele riu, coisa antiga. Não respondeu e o Laércio entendeu que fica assim, quando não responde é porque não é para perguntar a segunda vez. - Vamos mais tarde. Deixa rever, posicionar corretamente para enfrentar essa turminha de espertos. Até demais. - Sim, senhor. Sentou-se novamente e aguardou, olhando a atenção dele voltada para o relatório, dando pequenos toques no papel e viu, sorrindo, que fazia, também, o dó até o sol e voltava. Quando ele percebeu, parou. Atendeu vários telefonemas, anotou, passou adiante e esperando. Quando perceberam, onze horas e doze minutos. E escutou. - Vamos, agora. - Nesse momento. - Sim, pegando o paletó, sem gravata e sem colocar nos braços. A arma atrás e a do pé, direito. Ele fez o mesmo. Quando passou pelos dois outros investigadores deu o toque e seguiram atrás. O delegado de plantão viu o movimento e não se importou. Sabe da sua competência e espera, sempre, os bons resultados. *o* - Eles chegaram Catatau. - E a cara do tenente? - Caso resolvido, foi o que entendi, fechando a porta atrás de si. Ele se levantou, olhou pela janela a chegada deles. - Tem razão, caso resolvido. E agora? - Resolvido, Catatau. Não é ótimo? - Espero que sim. Escutou bater na porta e autorizar a entrada. Eles assim fizeram quando o Elefante abriu por dentro. Como vai, tenente, menino. Eles subiram e sentaram-se. Novamente e somente quatro cadeiras. São, provavelmente, videntes ou lêem o futuro. - Como vai, tenente, quando se sentou e fez questão de sair da cadeira, enorme para ele, onde balança os pés e tentou forçar apertar a mão direita dos dois. - Tudo bem. Quero lhe dar os parabéns, Catatau. Aliás, Sigisfredo. Ele sorriu. Tudo o que nos apresentou uma grande mentira. - Um. - E não se atreva a enumerar, está me ouvindo. Vim armado e posso usar. E você, senhor Elisário e não Ramiro fique atento também. - Elefante, tenente. - Pelo visto os dois não gostam dos nomes. Eles sorriram e aceitaram. Pois bem, vamos aos fatos. O que disseram, ocorreu realmente nas cidades. Só conseguimos verificar até três anos atrás. Não importa. Não são sós funcionários ou ex de circos. São mortes aleatórias, apesar de serem iguais. De um matador serial. Isso com certeza. O que nos deixa de sobreaviso é o porquê de ter chamado a atenção para vocês. - Tenente, é que... - Catatau, por favor, vai terminar rapidamente. O caso está solucionado. Só queremos ter certeza da participação de vocês, ou alguém do vosso grupo. E temos quase certeza. - ... bem... sim... é mesmo? - Sim, não interrompa, por favor. Estou armado. - Já nos disse tenente, já entendemos. E olhou para o Elefante que, agora sim, fez questão de ajudá-lo a sentar-se novamente. Um fato que, em outra ocasião não precisou. Tinha certeza. - Está com algum problema, Catatau. - De vez em quando, tenente, não se preocupe. Problema nos ossos sabe como é. E o músculo fica um pouco duro e tenho dificuldades. Passa, pode deixar. - Portanto, você e o Elefante estão fora. Fez de propósito para provar? - Não senhor, tenente. Nada disso. Veja. Pode pegar na mão. Eu não consegui apertar, não foi. Pode ver, está dura. O meu joelho fica assim também e não consigo articular. Quer sentir. Ele olhou por cima da mesa e viu que a perna, direita, não balançava. A esquerda sim. Se tivesse que ajoelhar, para matar, como a primeira teoria, o Elefante teria muito trabalho. Ter que fazer o mesmo, duplamente. - Entendi, já entendi, voltando a se sentar. - Tire de vez a nossa dúvida, tenente. Já que sabe, por favor, é um dos meninos? É? - Não, senhor Catatau, falou apressado o Laércio. Não é ninguém do circo, do seu, pelo menos. Mas de alguém que é contratado sempre. Tirou a folha, com risco vermelho destacando. Ele olhou, pôs a mão direita na testa e apontou para o Elefante. Ele leu, nossa, deixou de ser analfabeto. Se não fosse horrível o que estava mostrando, teria que rir da situação que criaram. - Ele. Só ele? - Sim, só ele. - E toda a teoria de duas pessoas, perguntou o Catatau? - Foram vocês que criaram. - Não, nada disso. Não criamos nada. Tiramos de informações de outras delegacias, tenente. Depois de muita insistência. E o menino repórter é que conseguiu. Foi assim que criamos a teoria. Então, sozinho. Como ele fez? - Simples, bem, não tão simples assim. Ele simplesmente, provável, é a teoria do Laércio depois que saímos daqui ontem, por sinal bem zangado. Eu, ele não. Fiquei puto, melhor dizendo. Escaparam por pouco de levar tiro, sorrindo e eles relaxando. Ele fingia, provável, o assalto, fazia, quando meninas, tirarem a roupa e em seguida as esfaqueava. Depois, cuidadosamente deixava nos locais, arrumadas. Vimos isso pela posição. Não têm nenhuma marca de batida, pancada na cabeça ou qualquer outra sevícia. Não, não estuprava nenhuma delas e os rapazes que morreram, de alguma maneira, nos leva a dizer que ele, o fato de não gostar de mulheres e ao mesmo tempo apreciar os rapazes. Assim, de joelhos, se me entende. Ódio total. - Ele, quem diria. Bem, o que podemos fazer agora. O senhor tem provas? - Claro que não, ainda não. Vamos contar com vocês. Um elemento vai ficar aqui, outro será contratado na próxima cidade. Estão ouvindo bem? E seguir a ele discretamente. Vamos apanhá-lo. - Então, crime sexual. E nós pensamos que seria contra nós. - Também, afinal foi bastante coincidência. E ele viaja ou é contratado em outras cidades. Viu isso. E porque fazem assim? - Economia, tenente. Às vezes passamos um ou dois meses realmente de férias. Exaustão. E paramos em alguma cidade, só a família, para descansar. Isso no ano, claro, ou às vezes em mais tempo. Uma vida regrada, como percebeu, mas ao mesmo tempo desregrada, quando cansamos efetivamente do nosso mister de levar a alegria para as pessoas. Também cansa. E essa agora como vai dizer para a Catinha, Elefante? - Ela já estava preparada para algum de nós, Catatau. É esperar e ver. - Ela ainda está casada com você, Catatau? - Espero que sim. - E o marido anterior, rindo. - Ele é o mais exímio jogador de faca que conheço tenente. Fique longe dele e não o aborreça, brincou. - Vou fazer. Então, tudo combinado? - Sim senhor, fazendo esforço e o Elefante o depositando no chão. De pé. O joelho avariado à frente e tentando firmar. Quando ele abriu a porta para saírem, bem, ali estava sempre atenta a Catinha. Com ar de interrogação no rosto. Sem falar. Ele fez um sinal qualquer para ela, não entendeu. Ela colocou a mão no rosto, se virou e se retirou, correndo e chorando. - Vai sofrer mais essa. Não vou lhe dar os detalhes, tenente, sabe esse assunto sexual. Vamos colaborar. Obrigado mesmo. - Certo Catatau. Elefante. E do local mesmo fez sinal para os dois investigadores que relaxaram. Ele, o próprio, viu de longe o movimento. E pareceu tudo normal. Seguiu com o olhar. Vou me vingar de todos vocês. Todos vocês. Não vão me pegar nunca. Quando saiu, com o Catatau e o Elefante dando adeus de longe, ele seguiu toda a linha e retornou para eles dois. Não estavam olhando para ele e sim para toda a tropa. Não desconfiam de nada. Eu sei o que faço. E vou continuar a fazer. Vocês não me pegam. Eu mato a todos que me prejudicaram. E você, Catatau, será o próximo. Idiota. Seis meses depois e mais nenhuma morte, se soube, o Laércio recebeu o aviso que ele morreu em estranhas circunstâncias. Uma haste de ferro, base, na abertura da lona e o puxar das cordas, fez com que lhe batesse na cabeça. Foi um grande transtorno para dizer, para toda a família, no enterro, o terrível acidente que foi acometido. O tenente foi. E teve a certeza deles que foi proposital. - É família, tenente. Não poderíamos deixar acontecer de outra maneira. O senhor há de entender. - E como vão fazer daqui para frente, sem o “respeitável público”. - Pois é, vamos levar adiante. O menino, o repórter, sorrindo, mudou de profissão. O Laércio sorriu quando soube da informação por telefone. Ele não gostava, realmente, de ser chamada a atenção, todos os dias, pela passada de mão do Catatau. Mas era sim, reagiu errado. Se não ama, não precisa matar. Mas se odeia o suficiente, consegue. E o público vai entender que acidentes acontecem. Ficou provado que foi assim. Uma fatalidade. Ele, sua deficiência moral e o que o levou a praticar os crimes. Quem estava mais perto e eram seus conhecidos, foram os primeiros a serem abatidos. Um horror. Uma tristeza infinda. E o circo vai continuar. Com a dureza dos fatos e o aceitar que, a vida tem o seu lado triste, mesmo correndo atrás, chutando as bundas, passando a mão para aliviar o que sequer foi atingido. Vida cigana. Vida de circo. E um deles enterrado em uma cidade estranha. Era sozinho. Talvez até demais. Um grande desamor para a Catinha. E um sofrimento maior para toda a trupe. Mais cuidado na próxima. - Então, tenente, ficou triste por não ter prendido o homem? - Fiquei triste por não ter prendido quem fez o acidente. - Levaria anos, tenente. É família, ficou bem claro. - Ficou, sim, bem claro. E estão certos, dentro do torto que fizeram. Nós sabemos e fica assim no nosso relatório. Caso encerrado. 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| Última atualização em Seg, 01 de Março de 2010 12:00 |
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