O que esperas do sexo, minha cara, que anjos venham cantar em seu louvor, que trombetas soem dos céus, que estrelas caiam como fogos de artifício? É com certa dose de crueldade e malícia que se trepa. Não me venha com romantismos pueris, esse tempo já passou. E não me chame de cínico. Apenas constato uma realidade. Com corpos expostos em abundância nas vitrines reais e virtuais do mundo, não é de se espantar que o prazer, o desejo, estejam banalizados. E daí para a violência é um pulo, não achas? Contraditório, eu? Não estou fazendo defesa disso ou daquilo, só quero que entenda que não existe pureza.
Como procuro ser muito honesto, vez por outra vou à ossatura dos acontecimentos, das sensações. E me critico, me questiono, duvido de mim mesmo. Quantas vezes já me peguei pensando monstruosidades? Quantas vezes não imaginei ser cruel? Até comigo mesmo... E não é que o poder que a crueldade exerce em quem está muito seguro de si dá prazer? Sim, é quase uma droga, um prazer mórbido. Uma morbidez tão próxima do regozijo, do prazer sublime... É perigoso viver, ainda mais quando não reconhecemos o imenso mar que existe dentro de nós. Já fui atraiçoado, sim, fui, muitas vezes. E não creio, sinceramente, que em nenhuma delas tenha sido premeditado. É da natureza humana. Muitas vezes nos protegemos e com esse instinto de defesa acabamos por ferir quem está próximo muitas vezes se doando. Sim, quero dizer que também fiz o mesmo.
Alma generosa? É, já me disseram isso. Porém, preciso proteger minha generosidade da ânsia suicida de querer ultrapassar a linha tênue que a separa da ingenuidade. Contraditório, eu? Quem não é? Apenas não consigo parar de analisar, avaliar cada gesto meu... E isso nos leva a caminhos tortuosos, a um oceano de memórias. Não fujo disso, eis o cerne da questão. Vou fundo, busco a plenitude, mas para isso é preciso enfrentar os demônios, os próprios demônios. Já me deparei com vários e não é que exatamente nestes momentos me tornei um anjo? Talvez eu cante em seu louvor quando te entregares sem amarras aos teus desejos, ainda mais se for pra mim...
É tão sutil a demarcação de terras de vizinhos tão rivais como o desejo do prazer e da crueldade. Há muitos outros exemplos, mas neste instante só mencionarei estes. Posse, eis a palavra proibida. Nos livros de História já não se falou tantas vezes nas zonas proibidas? Pois a posse é a zona proibida das paixões. Tão proibida que se torna a mais atraente. É preciso sabedoria para lidar com o poder. Possuir é o primeiro passo e o primeiro erro. E para ser errante é preciso ir além do primeiro passo. Possuir é o primeiro passo em falso, mas é possível se reequilibrar e caminhar adiante, basta querer. O que não dá é pra ficar parado ad eternum.
A voz do coração é rouca, ou melhor, está rouca. Está impedida de cantar, momentaneamente pelo menos. Há o desejo de lançar a sua mais bela voz, mas não há como. A voz do coração pode ser o canto da sereia quando curar sua rouquidão. Melhor abafá-la vez por outra, deixá-la presa na garganta e silenciar. Sim, pois sem silêncio como mergulhar nas profundezas do seu próprio ser em busca de si mesmo? O que quero? Isso, exatamente isso. Existe o ser puro? O nosso mais verdadeiro eu não seria uma grande e enganosa utopia? Quando nascemos já trazemos uma profusão de gentes das mais variadas espécies dentro de nós. Nem vou tocar na questão espiritual que não é meu ramo, fiquemos apenas na questão material, a mais palpável...
Palpável? Há tanta subjetividade só nesta área que não posso chamá-la jamais de palpável, palatável, olfativa, visualizável... Ah, repara como a vida é ampla, extensa? Como somos imensos, ou melhor, como somos tão pequeninos num sem fim de mundo e, no entanto, guardamos imensidões em cada um de nós. E nem falei das influências externas. Esses estrangeiros que vivem nos tirando o sono, forasteiros que batem à nossa porta no meio da madrugada, sem nada avisar, sem nada pedir, apenas a nos olhar de cima a baixo com um olhar perturbador, como se ele começasse a se reconhecer naquele instante, como se estivesse diante de um espelho. Aí pergunto, onde está o espelho?
E nem falei da educação, das convivências, das experiências, dos ambientes, do clima, dos perfumes, das escolhas... Aqui está! É exatamente aqui que precisava chegar, na palavra escolha. A vida é isso, não há outra definição melhor, não há. Somos verdadeiramente aquilo que escolhemos ser.
E as monstruosidades que disse imaginar não fazem parte das minhas opções, podes crer. Anote: somos verdadeiramente aquilo que escolhemos ser. Muitos o verão como seu próprio espelho, já citei; é inevitável, principalmente quando o acusarem de algo. E aí, verás que por mais escolhas firmes que fizermos, haverá sempre espaço para enganos, espertezas, crueldades também. Porém, as vidas que se entrecruzam, que se entrelaçam ou simplesmente passam, mesmo que tangenciando as nossas, formam no mundo um imenso jogo de espelhos de infinitas possibilidades, mesmo que de gestos refletidos e repetidos.
Imagine-se num quarto em que há espelhos nas quatro paredes, talvez até no teto e no chão... Vertigem? A vida é vertiginosa, a não ser para os medíocres e acomodados, os acometidos pelo tédio. Deixemos estes de lado, por ora... ou melhor, para sempre. Bom, dizia que a vida é vertiginosa, é só parar um segundo para pensar. Mas voltando ao quarto espelhado... Imagine-se neste quarto fechado. Repare que cada gesto que tu faças, por menor que seja, um leve suspirar, movimentará milhares de outros seres iguais a tu. Qual deles és tu verdadeiramente? Todos ou nenhum? Será que é só este em que tu tocas, sentes? Ali dentro, tu mesma verás, todos se tocarão, se sentirão, da mesma forma que ti, porém cada um a seu modo. Tu, que és a mola mestra desta engrenagem, só pode sentir por si, jamais por cada um dos milhares que estão refletidos e repetindo teus gestos. Quem tem o comando és tu, mas por outro lado não conseguirás jamais fazer com que uns gesticulem de um modo e outros, de outro.
Chego com essa alegoria a outros dois vizinhos rivais: prisão e liberdade. Fascinante viagem, não é? Quase psicodélica. E não usei droga alguma, também não fazem parte das minhas escolhas. Creio que finalmente consegui recuperar um pouco da minha fértil imaginação infantil. Aquela que achei por anos estar na poeira dos ventos, bailando por aí, sem rumo, errante...
É, e muito melhor, com a idade que tenho agora, muito provavelmente no meio da minha vida, no centro de tudo o que vivenciei e vivenciarei: o marco divisor de uma vida, o zero absoluto, o cume da montanha. Para subir fui lentamente escalando cada metro. Agora a descida será mais rápida, mas creio estar preparado. Antes pensava que me jogaria quando aqui chegasse. Desejo juvenil de resolver tudo de uma vez. Mas farei da descida uma subida de cabeça pra baixo. Hahaha...
Não, não viverei plantando bananeira, de ponta à cabeça como chamam os paulistas. Quero apenas descer observando a paisagem, cada detalhe, cada pássaro, cada árvore, cada vão rasgado no ar. Se na subida evitei olhar para baixo e me preocupei mais em perceber onde segurava, se mais vi a pedra e o caminho do que o que havia à volta, agora desço de frente para o vão da vida sentindo o vento e o sol no peito e na cara. Afinal, é preciso um grand finale. Quem sabe não crio asas para flanar e só voltar ao ponto dessa escalada final quando me cansar?
Vou contar um segredo. Na subida fiz isso algumas vezes, mas fui tolo, inexperiente. Por medo, muitas vezes voltei à segurança antes do tempo. Por deslumbramento, por vezes fiquei tempo demais no ar e quase me esborrachei lá embaixo. Agora, como fruto desses erros, como sobrevivi, mais escaldado estou para enfrentar a água fria. Não, não sou mais o gato assustado de outrora, o medo cessou. Quem sabe quando estiver no fim da linha ele não retorne? Porém, também não me enganarei tão facilmente. Cometerei, sim, erros; porém novos. Novos erros, eis o que aguardo.
Só espero me construir de tal forma que o medo, se vier, não me venha em forma de desespero. É preciso elegância até para chegar ao fim da linha. Quero que venha sereno e leve numa brisa para onde finalmente preciso chegar. E que dessa brisa se faça ventania, bons ventos que uivem incessantemente como o lobo que ficou no topo da montanha avistando a lua desta longa e luminosa noite.
Como procuro ser muito honesto, vez por outra vou à ossatura dos acontecimentos, das sensações. E me critico, me questiono, duvido de mim mesmo. Quantas vezes já me peguei pensando monstruosidades? Quantas vezes não imaginei ser cruel? Até comigo mesmo... E não é que o poder que a crueldade exerce em quem está muito seguro de si dá prazer? Sim, é quase uma droga, um prazer mórbido. Uma morbidez tão próxima do regozijo, do prazer sublime... É perigoso viver, ainda mais quando não reconhecemos o imenso mar que existe dentro de nós. Já fui atraiçoado, sim, fui, muitas vezes. E não creio, sinceramente, que em nenhuma delas tenha sido premeditado. É da natureza humana. Muitas vezes nos protegemos e com esse instinto de defesa acabamos por ferir quem está próximo muitas vezes se doando. Sim, quero dizer que também fiz o mesmo.
Alma generosa? É, já me disseram isso. Porém, preciso proteger minha generosidade da ânsia suicida de querer ultrapassar a linha tênue que a separa da ingenuidade. Contraditório, eu? Quem não é? Apenas não consigo parar de analisar, avaliar cada gesto meu... E isso nos leva a caminhos tortuosos, a um oceano de memórias. Não fujo disso, eis o cerne da questão. Vou fundo, busco a plenitude, mas para isso é preciso enfrentar os demônios, os próprios demônios. Já me deparei com vários e não é que exatamente nestes momentos me tornei um anjo? Talvez eu cante em seu louvor quando te entregares sem amarras aos teus desejos, ainda mais se for pra mim...
É tão sutil a demarcação de terras de vizinhos tão rivais como o desejo do prazer e da crueldade. Há muitos outros exemplos, mas neste instante só mencionarei estes. Posse, eis a palavra proibida. Nos livros de História já não se falou tantas vezes nas zonas proibidas? Pois a posse é a zona proibida das paixões. Tão proibida que se torna a mais atraente. É preciso sabedoria para lidar com o poder. Possuir é o primeiro passo e o primeiro erro. E para ser errante é preciso ir além do primeiro passo. Possuir é o primeiro passo em falso, mas é possível se reequilibrar e caminhar adiante, basta querer. O que não dá é pra ficar parado ad eternum.
A voz do coração é rouca, ou melhor, está rouca. Está impedida de cantar, momentaneamente pelo menos. Há o desejo de lançar a sua mais bela voz, mas não há como. A voz do coração pode ser o canto da sereia quando curar sua rouquidão. Melhor abafá-la vez por outra, deixá-la presa na garganta e silenciar. Sim, pois sem silêncio como mergulhar nas profundezas do seu próprio ser em busca de si mesmo? O que quero? Isso, exatamente isso. Existe o ser puro? O nosso mais verdadeiro eu não seria uma grande e enganosa utopia? Quando nascemos já trazemos uma profusão de gentes das mais variadas espécies dentro de nós. Nem vou tocar na questão espiritual que não é meu ramo, fiquemos apenas na questão material, a mais palpável...
Palpável? Há tanta subjetividade só nesta área que não posso chamá-la jamais de palpável, palatável, olfativa, visualizável... Ah, repara como a vida é ampla, extensa? Como somos imensos, ou melhor, como somos tão pequeninos num sem fim de mundo e, no entanto, guardamos imensidões em cada um de nós. E nem falei das influências externas. Esses estrangeiros que vivem nos tirando o sono, forasteiros que batem à nossa porta no meio da madrugada, sem nada avisar, sem nada pedir, apenas a nos olhar de cima a baixo com um olhar perturbador, como se ele começasse a se reconhecer naquele instante, como se estivesse diante de um espelho. Aí pergunto, onde está o espelho?
E nem falei da educação, das convivências, das experiências, dos ambientes, do clima, dos perfumes, das escolhas... Aqui está! É exatamente aqui que precisava chegar, na palavra escolha. A vida é isso, não há outra definição melhor, não há. Somos verdadeiramente aquilo que escolhemos ser.
E as monstruosidades que disse imaginar não fazem parte das minhas opções, podes crer. Anote: somos verdadeiramente aquilo que escolhemos ser. Muitos o verão como seu próprio espelho, já citei; é inevitável, principalmente quando o acusarem de algo. E aí, verás que por mais escolhas firmes que fizermos, haverá sempre espaço para enganos, espertezas, crueldades também. Porém, as vidas que se entrecruzam, que se entrelaçam ou simplesmente passam, mesmo que tangenciando as nossas, formam no mundo um imenso jogo de espelhos de infinitas possibilidades, mesmo que de gestos refletidos e repetidos.
Imagine-se num quarto em que há espelhos nas quatro paredes, talvez até no teto e no chão... Vertigem? A vida é vertiginosa, a não ser para os medíocres e acomodados, os acometidos pelo tédio. Deixemos estes de lado, por ora... ou melhor, para sempre. Bom, dizia que a vida é vertiginosa, é só parar um segundo para pensar. Mas voltando ao quarto espelhado... Imagine-se neste quarto fechado. Repare que cada gesto que tu faças, por menor que seja, um leve suspirar, movimentará milhares de outros seres iguais a tu. Qual deles és tu verdadeiramente? Todos ou nenhum? Será que é só este em que tu tocas, sentes? Ali dentro, tu mesma verás, todos se tocarão, se sentirão, da mesma forma que ti, porém cada um a seu modo. Tu, que és a mola mestra desta engrenagem, só pode sentir por si, jamais por cada um dos milhares que estão refletidos e repetindo teus gestos. Quem tem o comando és tu, mas por outro lado não conseguirás jamais fazer com que uns gesticulem de um modo e outros, de outro.
Chego com essa alegoria a outros dois vizinhos rivais: prisão e liberdade. Fascinante viagem, não é? Quase psicodélica. E não usei droga alguma, também não fazem parte das minhas escolhas. Creio que finalmente consegui recuperar um pouco da minha fértil imaginação infantil. Aquela que achei por anos estar na poeira dos ventos, bailando por aí, sem rumo, errante...
É, e muito melhor, com a idade que tenho agora, muito provavelmente no meio da minha vida, no centro de tudo o que vivenciei e vivenciarei: o marco divisor de uma vida, o zero absoluto, o cume da montanha. Para subir fui lentamente escalando cada metro. Agora a descida será mais rápida, mas creio estar preparado. Antes pensava que me jogaria quando aqui chegasse. Desejo juvenil de resolver tudo de uma vez. Mas farei da descida uma subida de cabeça pra baixo. Hahaha...
Não, não viverei plantando bananeira, de ponta à cabeça como chamam os paulistas. Quero apenas descer observando a paisagem, cada detalhe, cada pássaro, cada árvore, cada vão rasgado no ar. Se na subida evitei olhar para baixo e me preocupei mais em perceber onde segurava, se mais vi a pedra e o caminho do que o que havia à volta, agora desço de frente para o vão da vida sentindo o vento e o sol no peito e na cara. Afinal, é preciso um grand finale. Quem sabe não crio asas para flanar e só voltar ao ponto dessa escalada final quando me cansar?
Vou contar um segredo. Na subida fiz isso algumas vezes, mas fui tolo, inexperiente. Por medo, muitas vezes voltei à segurança antes do tempo. Por deslumbramento, por vezes fiquei tempo demais no ar e quase me esborrachei lá embaixo. Agora, como fruto desses erros, como sobrevivi, mais escaldado estou para enfrentar a água fria. Não, não sou mais o gato assustado de outrora, o medo cessou. Quem sabe quando estiver no fim da linha ele não retorne? Porém, também não me enganarei tão facilmente. Cometerei, sim, erros; porém novos. Novos erros, eis o que aguardo.
Só espero me construir de tal forma que o medo, se vier, não me venha em forma de desespero. É preciso elegância até para chegar ao fim da linha. Quero que venha sereno e leve numa brisa para onde finalmente preciso chegar. E que dessa brisa se faça ventania, bons ventos que uivem incessantemente como o lobo que ficou no topo da montanha avistando a lua desta longa e luminosa noite.
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