Mais uma entre as centenas de manhãs pardas e cinzentas, e esta, pior ainda: era segunda-feira. Caroline, estava sentada na praça ao lado da escola, tinha o cabelo cortado de forma irregular ( que estava mais estranho do que nunca), era magra, talvez excessivamente, rosto fino com olhos profundos num tom amendoado (ainda que não maquiada possuía uma beleza diferente que conseguia chamar atenção), All Star preto e gasto, já com pequenos furos do lado, calça jeans largas, uma blusa branca, e a mochila feita com um tecido diferente, porém já desbotado.
Observava a multidão de alunos em torno do portão ainda fechado, alguns sozinhos mergulhados num universo paralelo, trazido pela magnificência dos poderosos fones de ouvido, outros se juntavam em duplas ou aos montes, riam e conversavam, apontando de vez em quando para algo ou alguma coisa, que Carol não se interessava em saber, mostravam ( ou tentavam) de maneira gritante porém natural, que são donos de si, que tem domínio total do que os cerca e que agora sim, são grandes o bastante para enfrentar os “altos obstáculos” que a tão ansiada adolescência trazia.
O portão abriu, e como numa procissão, todos foram entrando, rapidamente ocupando seus “postos de cada dia”, Carol, levantou do banco de concreto gelado, apoiou somente uma das alças da mochila no ombro, entrou sozinha, tinha feito poucas amizades, queria e gostava de ser assim, acreditava que muitas pessoas juntas trazem o modismo e são falsos entre si, e tudo o que ela menos queria era torna-se escrava de tendências e alvo de muitos comentários.
Assim, o “ritual” de cada manhã ia concretizando-se, e, já dentro da escola, ela esperava uma de suas amigas, Juliana. Ju era diferente das outras, conseguia entende-la e pensava como ela, e ainda que não entendesse, não opinava,o que Caroline achava ótimo.
Mas, Ju não chegou então Carol subiu sozinha para sala, tinha esperado até 07 45, e aula já havia começado há 15 minutos, o que lhe rendeu olhares de desdém e reprovação, porém própria professora não a questionou, então não importou-se.
Cursava o 3° ano do ensino médio, era uma boa aluna, talvez uma das melhores, não se julgava NERD (embora grande parte dos colegas sim), dizia apenas que para entrar numa universidade pública era preciso esforçar-se e além do mais, ia para escola para isso, não?!
A manhã passou rápido, Ju não ligou nem mandou mensagem ( o que era estranho, pois não fazia nada sem pedir opinião ou tagarelar a respeito) talvez tivesse viajado, e por qualquer motivo não teve como avisá-la.
A casa de Carol era próxima a escola, antes de ir passou no “mercadinho” comprou algumas besteiras, ficava sozinha na maior parte do tempo, não tinha irmãos e seus pais trabalhavam o dia inteiro o que tornava seu dia ainda mais monótono.
Tentou falar com a amiga mais duas ou três vezes, e sem ter respostas, foi para frente do computador, quem sabe Ju estivesse online? Mas não estava, e quando Carol ia desligar, o telefone tocou, correu para atender, tropeçou no tapete, e ofegante disse:
- Alô?..... Como?! ... mas, eu.....Não, não foi para aula hoje..., sim tenho certeza, a esperei no lugar de sempre!
Carol colocou o fone no gancho, o coração disparou e ela conteve o soluço com uma das mãos, a mãe de Ju acabará de ligar, disse ter deixado a filha uma quadra antes do colégio, e ficou não menos desesperada ao saber que Ju não tinha ido à aula nem estava com Carol.
O que haveria acontecido? E por quê?
Ficou desorientada, não sabia ao certo o que fazer ou o que pensar, sentou-se ali mesmo no chão e começou a criar hipóteses, o que poderia ter acontecido? Lembrava-se que Ju estava um pouco calada na semana anterior, porém não conseguia relacionar isso com nada, sem sucesso em busca de respostas levantou-se, ligou para a mãe e relatou tudo o que havia acontecido ela ficou bastante preocupada, e a proibiu de sair de casa até que a situação fosse resolvida. Carol, entretanto nem ligou para isso, não conseguia conforma-se estava perdida em suas idéias, e pior, não tinha nada que pudesse fazer.
Esperou por cerca de mais 2 horas e falou novamente com a mãe da amiga, está atendeu o celular com voz de quem havia chorado muito, disse ter dado queixa a pólicia e que a orientação que recebeu era de manter sigilo sobre o assunto, que eventualmente se precisassem de alguma informação iriam procurá-la.
A tarde começou a “cair” assustadoramente triste, por volta das 18: 45 a campainha tocou e quebrou o tão longo silêncio, Carol levantou e foi atender, abriu a porta e não viu ninguém, sentiu um arrepio subir pela espinha, o vento soprava forte e causava barulhos semelhantes aos dos filmes que ela costumava assistir, olhou pra os lados e nada (sentiu algo muito estranho estava acontecendo) quanto notou que no segundo degrau da escadinha que levava a porta havia um envelope, pequeno, e um pouco velho, abaixou e pegou, na frente estava escrito:
PARA A QUERIDA E ETERNA AMIGA: CAROLINE
Entrou correndo, sentou no sofá e começou a ler:
“Carol, perdoe o sumiço, mas infelizmente era preciso agir assim, só posso dizer que estou alguém que amo muito, por favor não conte a ninguém, não me procure, nem se preocupe, estarei bem, e levo boas lembranças comigo....”
JULIANA.
Carol começou a rir desesperadamente, simplesmente não conseguia acreditar naquela historia – “não isso não é possível”- repetia para si mesma, andava de um lado para o outro, e por mais que quisesse não era capaz de confiar nesta carta, e se antes desconfiava que algo estava errado agora tinha absoluta certeza. Trocou de roupa e saiu, o frio la fora cortava-lhe as bochechas , ela ficou andando, pensando algo tinha que ser feito o mais rápido possível, mas o que? Entrou num cyber café pediu um chocolate e ficou imersa em suas lembranças da amiga, emocionou-se ao lembrar de tudo o que já haviam passado juntas, terminou o chocolate e tomou uma decisão: iria até a casa de Ju na esperança de encontrar algo que levasse a uma resposta mais lógica, do que aquela carta ( afinal de contas, Ju nem sequer namorava, como fugiria com alguém ?) E , bem como a conhecia, ela não era uma pessoa ultra-romântica que largaria tudo afim de viver um conto de fadas...
Começou a chover, Carol saiu do café e correu até o ponto mais próximo, subiu no primeiro ônibus que passou e ficou cerca de 15 minutos dentro dele, desceu em frente a uma padaria andou mais duas quadras e chegou até aquela rua que conhecia tão bem. Foi até a casa da amiga, e para sua surpresa aparentemente não havia ninguém, o que é estranho, pois se alguém desaparece o mínimo que se espera é que os familiares desse alguém o aguarde chegar em casa, tocou a campainha 5 ou 6 vezes , os cachorros
agitaram-se e latiram alto ( como se também estivessem desesperados com a falta da dona). Ela não pensou duas vezes, pulou o portão que era baixo e de pintura gasta, tentou acalmar os cães mais não conseguiu, a porta estava trancada por dentro, porém tinha uma janelinha na qual ela conseguiu enfiar o braço e sem muito esforço entrou.
A atmosfera da casa nunca fora muito agradável ( Ju se desentendia muito com sua mãe) mas estava pior do que ultimamente, a sala mal iluminada , tinha uma mobília rústica empoeirada que lembrava um clima medieval, a louça da pia não havia sido lavada , no mais tudo estava de acordo com o que Carol conhecia, ela subiu rapidamente as escadas em direção ao quarto enquanto pensava no que dizer caso alguém chegasse ( poderia até ser suspeita).
No quarto tudo estava no lugar, a cama estava forrada, e Carol suspeitou que Ju talvez já não tivesse passado a noite em casa, mas como? A mãe dela disse a ter deixado hoje de manhã na escola, então a sensação de algo muito mais sério estava por trás daquela carta voltou.
Ela fuçou em todas as gavetas e não encontrou nada, exceto uma caixa pequena de madeiras feita para guardar bijuterias, estava fechada com um cadeadozinho, ela sacudiu e não ouviu barulho de metais, ficou curiosa para saber o que havia dentro, a amiga nunca tinha lhe mostrado está caixa. A cada minuto que passava ela ficava mais nervosa, qualquer ruído a fazia estremecer, desceu as escadas, e na cozinha procurou algo que pudesse ajudá-la a abrir, mas para sua surpresa o que ela encontrou no fundo do armário de pratos foi uma faca, que estava limpa, mas o que lhe chamou mais atenção foi o cabo, estava envolto em uma sacola plástica, e está sacola sim, parecia ter sido suja com algum liquido de cor escura ( vermelho ou vinho talvez ) e que agora estava seco, o coração dela disparou lá fora já estava escuro e ela começou a ficar realmente com medo daquela situação, medo daquele lugar, do que havia acontecido ali.., não entendia nada a respeito de sangue, digitais ou coisas do tipo, mas tinha a certeza que não era normal encontrar uma faca no armário de pratos , e , daquele jeito... Decidiu que ia embora naquele instante, arrependeu-se de tudo que fez , colocou a faca no armário novamente e, quando ia em direção da escada para devolver a caixa no lugar, ouviu o barulho do portão enferrujado, e um carro entrou na garagem
Continua.....
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