| A FILOSOFIA DA EXISTÊNCIA DE KIERKEGAARD E NIETZSCHE |
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| Artigos Científicos - Ciências Sociais |
Escrito por cleubebracho |
Seg, 17 de Novembro de 2008 17:38 |
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INTRODUÇÃO
O estudo da filosofia nos leva a questionar princípios básicos, norteadores da vida humana. Sócrates já ensinava que a atitude filosófica é por si um questionamento de opiniões. Apesar de criticado por Nietzsche, Sócrates invoca neste ponto, um argumento pelo qual estamos lendo o próprio Nietzsche, isto é, formar opiniões e posturas em relação à nossa existência. Este trabalho foi proposto exatamente para estabelecer relações entre dois grandes filósofos em seu pensamento sobre a existência, e assumir uma opinião a respeito. Embora sejamos púberes no entendimento de aspectos profundos da filosofia, tanto que às vezes acompanhar o raciocínio dos mestres seja um alvo inexpugnável, mostraremos as características principais dos filósofos Kierkegaard e Nietzsche, os pontos em comum, as diferenças, e o que entendemos sobre sua obra. Kierkegaard foi o filósofo que teve maior destaque na corrente do existencialismo, não por ter sido o primeiro a pensar sobre o tema, mas pela própria perspicácia das análises que faz da situação do homem, e, sobretudo pela influência direta que exerceu sobre todos os filósofos existencialistas contemporâneos. Foi Kierkegaard que elaborou a temática e conceitos fundamentais do existencialismo. (Giles, pg.05) Nietzsche é muitas vezes lembrado pelos seus traços de controvérsia e pelo impacto de suas palavras, definidas como "estilo bombástico", pelo ataque ao cristianismo e ironias, tem sido considerado um precursor das características da nossa sociedade atual, pelo estilo literário inovador assim como pelas suas visões sobre o mundo que nos cerca. 1. FILOSOFIA DA EXISTÊNCIA DE KIERKEGAARD Sören Aabye Kierkegaard nasceu em Copenhague, Dinamarca, em 1813, sendo seu pai religioso, por isto crescendo na presença de uma fé que marcou sua vida e obra, e gerou sua principal questão: como é a relação do homem com Deus. Todo esse ambiente foi resultado de uma religiosidade sombria, envolta numa atmosfera de maldição que, desde a infância, já pesava sobre seu pai, que lhe foi transmitida como herança. (Giles, pg.06) Hegel suprimiu a distinção entre Deus, mundo e indivíduo, numa integração da essência única - o Espírito Absoluto. Inconformado com este racionalismo que tenta reduzir as contradições da realidade, Kierkegaard coloca o indivíduo no pensamento central filosófico para reconhecer o abismo entre este e o Espírito Absoluto. O indivíduo livre reconhece sua existência frente à sua temporalidade e a eternidade, e assim encontra sua singularidade, sua subjetividade. A concepção existencial de Kierkegaard é permeada por sua religiosidade, em uma busca sem fim pela fé, chegando a afirmar que existir é crer. Portanto, é na subjetividade da transcendência que o indivíduo encontra sua verdade. A importância deste aspecto é que sua teoria está direcionada para o indivíduo, que apropriado da sua realidade, é o elemento central da sua existência. O indivíduo passa a ser o objeto do pensamento filosófico de Kierkegaard, com características auto-determinantes, capaz de exercer escolhas e reconhecer em sua existência seu potencial. A subjetividade é uma apropriação do cristianismo e da verdade, livremente e com responsabilidade. O único problema do indivíduo é quando, sem perceber sua dimensão existencial, não se reconhece como detentor do poder de suas escolhas, ou sua responsabilidade para consigo mesmo, e desconheça a relação com sua interioridade. Este é o paradoxo existencial, o modo como o homem se relaciona com um Deus que o transcende. A subjetividade do homem não alcança o transcendente, é insuficiente, há uma falta, pois a aspiração de plenitude é rechaçada pela incerteza infinita, e este é exatamente o ponto que prova a presença de Deus. Este é o drama existencial do ser humano, crer em um Deus sem a sua presença e permanecer na fé mesmo na incerteza. Há sempre a confrontação entre o existente e o divino. Isto é a dialética da existência, que conduz ao Absoluto, nunca o alcançando. Para Hegel, o grande filósofo é aquele que encarna o Espírito de sua. É assim que Kierkegaard se insurge contra Hegel para restaurar o pluralismo da subjetividade dessas três realidades fundamentais e distintas, entre si. Por toda essa parte há um caminho possível, o da subjetividade, e uma única saída a verdade do indivíduo na sua subjetividade. (Giles, pg.08) A responsabilidade de escolher leva a uma angústia que é um estágio intermediário, que não se refere a poder escolher entre o bem e o mal, mas entre o possível ou o real. É a vertigem da liberdade, a consciência da falta, pois quanto mais há necessidade da escolha, mais será um ato livre de escolher, e mais responsabilidade sobre esta escolha. A dialética Kierkegaardiana procura seguir as sinuosidades das determinações decisivas de todo o conjunto da existência. É uma dialética instaurada para ir em direção daquilo que essencialmente a transcende. Kierkegaard faz tudo para arruinar a dialética como fim em si, para ele a dialética é um instrumento que tem por finalidade procurar a verdade na realidade distanciando-se de tudo que é vazio e abstrato para ir em direção daquilo que é concreto e rico de conteúdo. (Giles, pg. 12) Existe um aprendizado na vida, que pode ser elencado em três dimensões de existência. Na dimensão estética o homem está ligado aos seus desejos imediatos, a uma busca pela realização de seu prazer mundano. Kierkegaard demonstra que a questão do prazer está no campo do gozo e sensações, incluindo a busca pelo conhecimento entre estes prazeres. Nesta dimensão o ser humano se estabelece em uma exaltação dos sentidos, levando-o a uma ilusão de liberdade total. Porém é neste estágio em que o individuo se priva da mesma liberdade, por uma inconstância dos impulsos, passando a ser escravo de seus instantes de felicidade passados, alimentando uma busca de momentos febris que alternam a tristeza e a melancolia com os extremos de satisfação momentânea. Acometido de suas vivências da dimensão estética, o indivíduo afunda em sua busca incessante de prazeres, e deixa de fazer escolhas para desfrutar de sua existência autêntica, pois nesta superficialidade, só o que poderia ter alguma relevância seria o trabalho poético, mesmo sendo uma ficção. Em todos os casos, a dimensão estética leva o homem para fora de si, sendo fútil e fugaz. O Estádio (*1) Estético não passa de uma reflexão sobre a irreflexão, a vontade refletida no imediato e, conseqüentemente, a vontade infeliz. A vida lhe parece desprovida de sentido, o que, por sua vez, leva a melancolia e a perda de si numa série de sensações passageiras. (Giles, pg.16). Para buscar a liberdade, o homem desperta sua consciência para seu desespero como doença mortal, e entra em questionamento sobre si, e entende que pode optar por não passar pela vida, como observador da sua própria existência. Esta seria a dimensão ética, onde há uma busca pela liberdade responsável, por introspecção, reflexão e escolhas. Neste momento esta escolha passará a ser coerente, mas não é o bastante, pois por natureza o homem é ambíguo, inconstante, contraditório. Deverá então se conduzir de uma maneira moralmente aceita pelo universal, e se submeterá à generalidade, consciente de sua responsabilidade. A escolha entre o bem e o mal, a responsabilidade de agir conforme sua consciência provoca uma integração de sua personalidade com o seu meio histórico e social. Encontrará, assim, questões que funcionarão como preparação para a próxima dimensão, a religiosa. No Estádio Ético há ao mesmo tempo reconhecimento e recusa de si, por parte do individuo. É o resultado e a expressão do individuo que reconhece que o mal lhe pertence essencialmente e, ao mesmo tempo também reconhece que também reconhece que também não lhe pertence. É o resultado do momento em que o individuo faz a sua opção que coincide com o reconhecimento da realidade do seu caráter concreto, e que se exprime no Estádio Ético. (Giles, pg.17) O relacionamento do homem com Deus e sua questão principal, a superação pela fé, é o paradoxo da superação de si mesmo, pois sua existência se explica pela busca de sua transição a um lugar acima de si mesmo. A moralidade conquistada no estágio ético permanece em imobilidade, fazendo com que surja uma busca por algo mais abrangente, acima do que ficou estabelecido, divino. O indivíduo assim supera o geral para voltar-se a uma relação particular com Deus. Os problemas existenciais que surgiram não conseguem suprir respostas suficientes nos estágios anteriores, assim algo maior, dando um salto de fé. Esta realidade nunca admitida por Sócrates, uma transformação que busca refletir uma imagem divina, que significa o reconhecimento de algo infinito, uma crença resignada baseada na consciência da eternidade, é bastante diferente de confiar na resposta filosófica intelectualista. A existência passa a ser uma luta para reconhecer a condição humana, consciente de algo divino, infinito, que não pode ser explicado. Compreende-se assim o paradoxo, o homem separado de Deus, consciente da Sua presença, sem conseguir, entretanto, satisfazer racionalmente seu entendimento. Assim, a filosofia não esgota as possibilidades da existência, a necessidade de soluções, a busca da verdade interior. A característica principal da fé consiste na resignação infinita em fase de todo finito, o que pressupõe uma dissociação total daqueles sonhos com os quais os inexperientes costumam confundi-la. (Giles, pg.26) Para Kierkegaard a filosofia como trabalho intelectual, que toma a virtude humana como paradigma, não tem relevância comparada à dependência humana de Deus. Entretanto, a fé cristã é baseada em uma paixão inexplicável, que não se atém a provas. A filosofia tem limites, sendo que o salto para a fé representa a liberdade do individuo no espaço e no tempo. Por isto fica demonstrado que a dimensão histórica não é um acúmulo de experiências que se sucedem na vida, mas um "fato eterno" de encontro do individuo com o Absoluto a cada momento, quando se torna síntese do infinito. Se o homem não se conecta com a realidade do Eterno, entra em uma existência de desespero, voltada para questão de ser, ou falta de consciência do que se é, colocando-se em posição de vítima. Os que ignoram o desespero estão mais longe da solução, contrário daquele que tem a coragem de enfrentá-lo. Kierkegaard considera o desespero do ser humano frente à sua finitude em relação ao infinito reconhecido no Absoluto, e em relação ao desafio de ser consciente. Sobre o problema de perceber o infinito, o desespero se torna permeado pela fantasia, que faz perder o sentido da realidade. Já em relação à finitude, o desespero fica referido às atitudes materiais e ao egoísmo, sem encontrar seu eu verdadeiro. Este "eu verdadeiro" é a consciência de poder realizar-se, ou as possibilidades dessa apropriação de si. O desespero nesta situação é a escolha do desafio, quando pode tentar libertar-se das limitações sem amadurecer realmente, ou encarar a realidade, fazer o salto da fé e tornar-se indivíduo ligado a Deus, reconhecendo a profundidade da condição humana. Kierkegaard compara o pecado como sendo a negação da idéia de Deus, pois mesmo quando o pecado é a ignorância, se não há conhecimento sobre algo, este algo não tem existência, contrapondo assim a referência socrática de que o pecado é a ignorância. Já, se há conhecimento de algo e age-se contrariamente a isto pela vontade, ausenta-se o indivíduo da sua responsabilidade de escolha. O pecado está então na vontade, que corrompe a fé. Prosseguindo com o desenvolvimento do pensamento de Kierkegaard, chegamos a sua abordagem em relação à liberdade. Tudo gira em torno de possibilidades, escolhas. Ser livre significa ser o estruturador das maneiras de realizar os posicionamentos escolhidos frente a qualquer coisa, e assumir a responsabilidade respectiva a esta escolha. Entretanto, se posicionar com liberdade nas situações produz uma condição inevitável, a angústia. Encontrar a angústia significa que o indivíduo enfrentou questões existenciais, e na solidão de sua dúvida acha a liberdade da escolha. A angústia é a vertigem da própria liberdade. O indivíduo vê intercalar-se entre ele e o mundo um vácuo que o faz perder todo o sentimento de segurança. Sente-se arrebatado, entregue exclusivamente a si mesmo. Só na medida em que for capaz de sofrer a prova desse abandono será existencialmente livre. Somente através dessa angústia lhe será dado alcançar a liberdade; não há outro caminho para chegar até ela. (Giles, pg.44,45) O medo de alcançar este estágio de decisão é uma fuga em tomar parte da própria vida, o que leva a uma vida distraída, levada pelo cotidiano, seguindo desejos imediatos. Esta é uma atitude que acarreta melancolia, onde a angústia aguarda os fracassos inevitáveis de não se compromissar. Na forma de tentação, a angústia é o limite entre a inocência e a culpa, pois está entre o que é possível e o que será realidade, sendo que o pecado realmente existe no momento em que se torna real. Há dois tipos de angústia, uma que leva a efetivar o pecado, outra que penetra no mundo como criadora de liberdade, entre o abismo das possibilidades. Esta escolha entre viver sua existência ou fugir, é o paradoxo da existência. No estágio religioso o paradoxo é superado. O indivíduo se une a Deus, eterno, bem absoluto, detentor da verdade eterna, atemporal, e esta é a opção fundamental, onde presente passado esperança de antecipação do eterno se unem. Esta dialética infinita é a constante tensão entre o finito e o infinito, entre a própria mortalidade e a fé, que é característica da existência. 2. FILOSOFIA DA EXISTÊNCIA DE NIETZSCHE Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em uma família luterana, em 1844, em meio à cultura germânica humanista, patriótica. Após perder o pai mudou-se com a mãe para casa da avó materna, sendo criado no meio de mulheres. Foi aluno brilhante e professor de filologia e filosofia. Sua primeira obra foi sobre o pensamento grego antigo, onde aparece uma crítica severa a Sócrates, contra os padrões da sociedade da época. O pensamento de Nietzsche foi escrito em uma forma original, em grande parte por aforismos e poemas, e não chegou a elaborar um sistema formal. Entretanto, podem-se eleger seus principais temas. A vontade de potência, o super-homem, eterno retorno, são assuntos que revelam a grandiosidade e influência de sua obra. Sócrates, pela dialética, tem uma tendência racionalista a serviço da vida ao contrário da busca pura pelo conhecimento, característica que Nietzsche admira. A aspiração de Sócrates de salvação por si próprio assemelha-se com o ideal de Nietsche, no qual a meta da humanidade é a luta para atingir a superioridade. A filosofia exige coragem, prudência, firmeza e sutileza em todos os sentidos para poder olhar a realidade de cima para baixo, para ordenar os acontecimentos e restringi-los em seu caráter inteligível. O filósofo reconhece, aliás, que pode haver mais verdade nos pontos interrogativos do que atrás de todas as afirmações. É essa constatação que o fará emborcar a verdade de cima para baixo, inspirado na paixão pelas aventuras, pelo incerto, pelas coisas ainda não apontadas. (Giles, 57) Mas segundo Nietzsche, Sócrates teria sido o destruidor de uma parte da cultura grega, a tragédia, que celebra a existência tal como ela é. A tragédia mostra a contradição originaria sempre presente em todas as coisas, em composição de dois elementos, as forças apolíneas e dionisíacas. Ora, esta contradição entre o elemento claro e sombrio era para ele o ponto fundamental da grande cultura grega, que descreve o homem em relação com estes dois princípios. A existência também é assim, um reflexo de dois opostos, duas verdades caminhando lado a lado, o bem e o mal, a alegria e a dor. Nietzsche afirma que depois de Sócrates e sua busca inteligível da verdade, a contradição irreconciliável deste dualismo restou esquecida, substituída pela valorização do bem, da virtude. A busca da coerência e clareza apenas interditou a verdade da existência real, ainda mais ofuscada pelos ideais do cristianismo e sua moral altruísta baseada em outra vida melhor. A noção de que bom é o que se pode alcançar um lugar onde não estamos agora, mas que com abnegação e humildade conquistaríamos, faz do homem um fraco, um escravo. Mas os valores positivos que se encontram nesta moral são apenas reflexos falseados da realidade. A compaixão é uma doença, uma perda de força, simulacro fantasioso destinado a esconder os reais desejos e medos do ser humano, tal como a gratidão, forma sutil de vingança. O pensamento de Deus deturpa os valores humanos, por colocar a meta da humanidade além da própria vida. O cristianismo tem uma contradição básica, que Nietzsche demonstra pela antítese entre a fé e a ação, pois a vida proposta por Jesus é uma prática corrompida por Paulo de Tarso. A idéia de sacrifício do inocente pela redenção da culpa da humanidade, e a partir daí, transfere a prática da vida para a esperança da vida após a morte, com a ressurreição, ou seja, a boa nova foi sabotada. Sem um contexto histórico especial, a invenção do cristianismo teria pouca repercussão. Em vez de lutarem para tornarem-se perfeitos aqui, agora, como o próprio Jesus os exortava, põe a confiança num futuro distante, e a fé torna-se a mais perigosa e a mais lúgubre de todas as formas da "vontade para o desaparecimento". A vida, esmagada sob o peso do desprezo e do eterno, como indigna de ser desejada, é sentida como algo sem valor. (Giles, pg.99) Nietzsche propõe uma solução para esta dissimulação do real potencial humano, que corrigiria a dominação do pensamento cristão e colocaria o homem frente à realidade de sua existência, e também que seria uma postura frente à racionalidade científica. Tudo o que é tradicionalmente fundamental e importante deixa de ser o correto, pois se trata de erro, decadência. A proposta seria afirmar os valores reais para apropriação da vida, exercendo, pela força a própria vontade, um ato de domínio contra o conformismo, medo e preguiça. (...) Nietzsche se pôs ao ataque de um dos problemas mais difíceis da civilização ocidental moderna, a destruição da interpretação moral do mundo. Os valores supremos se desvalorizam. O homem moderno se surpreende com o fato de seus valores não terem mais valor, de suas metas não darem nenhuma finalidade ou sentido à sua vida, de seus prazeres não lhe proporcionarem felicidade. (Giles, pg. 74) Esta é uma filosofia ofensiva, voltada para a ação, baseada em que a vontade de potência é uma característica essencial do homem, e a vida encontra sentido somente nos nossos atos. Quando não cultivada, abafada pelos poderes estabelecidos na sociedade e os valores morais cristãos, a vontade de potência adormecida deixa o homem perdido para si mesmo. A inteligência pode se tornar ativa nas situações conflituais, pelas escolhas ou engajamento ético, e estas escolhas manifestam-se na ação. Assim, a inteligência substitui os valores morais e a ação substitui a adesão espiritual. Para conseguir uma existência verdadeira basta seguir a voz da consciência que diz constantemente: Torna-te aquilo que és. Faze sempre o que quiseres; mas sê desde logo daqueles que podem querer! (Giles, pg. 66) A vontade de potência é um impulso humano básico que se modificou com o tempo, justificado por causas que procuravam compreender o universo. Este impulso original é algo que impele o humano a agir, buscar respostas por si. Todos os homens querem o poder, êxito social, influência, mas isto vai contra a existência, pois corrompe a verdadeira busca da existência. A busca de valores do indivíduo parte do desejo de aperfeiçoamento, como um ímpeto psicológico. Este é um poder que enobrece o espírito, que não precisa de se provar para os outros, nem precisam ser bons para os outros, que mostraria apenas um desejo de gloria pelo sacrifício, que é uma atitude desonesta consigo mesmo. A motivação fundamental da vontade de potência é a superação de si, é uma evolução transcendente de si. A vontade de potência é, portanto, sinônimo da vontade de se superar a si mesmo, pois ao vivente apetece acima de tudo expandir sua própria força; a própria vida é uma evolução e uma encruzilhada da vontade de potencia. A vida é essencialmente um apropriar-se violentamente de tudo quanto é estranho e fraco, significa: opressão, rigor, imposição das próprias formas, assimilação, exploração, que é parte essencial de tudo que vive, é uma função orgânica, conseqüência da vontade de potencia, que é apenas a vontade de viver. (Giles, pg.98,93) O conhecimento histórico é necessário para o exercício do poder que capacita o homem para a vida, mas a preocupação excessiva com o passado tende a tornar os homens infelizes. A sabedoria neste caso é confiar no valor do conhecimento selecionado. Nem a História mundial, nem a evolução relatam a historia do progresso e, sim, o acréscimo fútil e sem fim de zeros que, todavia, não consegue mostrar que a vida pode ter valor ou sentido. Não nos ensina a ter fé no futuro. Muito pelo contrario, ensina-nos a desesperar, a ver a nossa própria depravação. (Giles, pg.83,84) Os resultados do questionamento inteligente, as escolhas com as quais nos deparamos, é causador da angústia de existir, que Nietzsche transforma em força existencial. O silêncio e invisibilidade de Deus são provas da sua inexistência, sendo assim o homem fica em face do nada, e deve voltar sua fé para si mesmo, abrindo caminho para liberdade do pensamento. O homem pode lançar-se a qualquer risco, pode ser o "criador-humano", transcender a si mesmo, ser "além-do-homem" ou super-homem. O conceito de "além-do-homem" define aquele que constantemente ultrapassa as próprias forças, na criação de si mesmo. Nietzsche constatava que a humanidade não se aprimorou no passar do tempo histórico, não sendo um processo de evolução, mas há no meio dos homens, casos isolados que representam a capacidade superior da humanidade, o super homem, ou "além-do-homem". O homem comum está na metade do caminho entre os animais e o super homem. Nisso Nietzsche segue os gregos que também opinaram que nem todos os homens são superiores aos animais, não são todos que têm a dignidade e merecem respeito, pois a maioria não é essencialmente diferente dos animais. Só uns poucos são racionais. A maioria dos homens são fatigados, comuns e acomodados - a grande massa, os ordinários, os supérfluos e os que estão demais. Todos esses são covardes. Todos sofrem daquela grande aflição que hoje se chama tédio. (Giles, pg.68) A filosofia de Nietzsche tem como fundamento questionar tudo, sem aceitar qualquer verdade pré-concebida. Deus está perdido, pois é contraditório. "Deus morreu e fomos nós que o matamos." É uma na qual Nietzsche faz um diagnóstico da civilização, que fica desvalorizada frente a gloria de Deus, e isto faz com que a existência perca seu significado. O grande desafio humano é encontrar os valores que não sejam ligados ao sobrenatural, valores que conduzam a uma vivência existencial mais completa. Nietzsche se considera precursor dos filósofos futuros, tendo oferecido em seus conceitos críticos, material para busca desses novos valores, incitando um questionamento sobre os valores estabelecidos, reformular o pensamento para extrair a hipocrisia e o preconceito. A transmutação dos valores é uma questão de consciência, pois, para Nietzsche, a assim chamada bondade do homem moderno não é virtude, a assim chamada religião não é religião, e as assim chamadas verdades não são verdades. (Giles, pg. 97) A moral destina-se meio indefinidamente ao bem e felicidade da humanidade, mas certamente não favorece o individuo na busca da sua felicidade. Esta moral de desprezo da humanidade falha por impor controles que não levam em conta a superação do ato, seja moral ou imoral. Mais uma vez, a transmutação dos valores se faz importante, o questionamento das idéias de bem e de mal, virtude, etc. Para Nietzsche, a virtude deve ser uma invenção do homem, por necessidade pessoal. O bom é o que fortalece o homem, a felicidade o que vence a resistência. A auto-superação como parcela fundamental da concepção da moral, se faz através de controle dos impulsos, por sublimação. Por exemplo, o impulso sexual pode ser usado em sublimação, de forma criativa, em atos produtivos. Nietzsche formulou um método para sublimação, composto de formas de superar os instintos. Primeiro não admitir que os instintos sejam satisfeitos por períodos maiores a cada vez, debilitando-os. Então, regular os apetites de maneira severa. Pode-se ainda entregar-se aos desejos sem nenhum freio a fim de enjoar deles, adquirindo poder de controlá-los. Intelectualmente, identificar a satisfação com algo penoso, que faria o efeito de perder o hábito. Outra manobra contra os instintos seria deslocar a atenção para um trabalho difícil, ou descobrir novos prazeres para direcionar o pensamento. Por ultimo, propõe que é possível esgotar física e psiquicamente o instinto violento, com uma atitude radical sobre a situação. Estes caminhos para evitar a violência do instinto e assumir a responsabilidade dos seus atos levariam à sublimação. Os nossos impulsos estão num estado de constante caos. Ora fazemos isso, ora aquilo. Pensamos de uma maneira, vivemos de outra, e parecemos de outra; queremos uma coisa e fazemos outra. Mas ninguém pode viver sem introduzir alguma ordem no organismo como totalidade ou repudiar e reprimir muitos dos impulsos. Porem o resultado não será a harmonia e sim, a castração da personalidade. Há um outro meio, organizar o caos: a sublimação, que permite alcançar uma harmonia orgânica. (Giles, pg.113). Neste ponto Nietzsche valoriza a razão, mas unicamente como fonte de força para realizar a vontade de potência, contra a irracionalidade que permite o caos. A filosofia questionadora dos dogmas é a representante mais forte da vontade de potência. Esta se expressa através do homem criativo, que busca a transcendência de si, coerente com uma atitude de dominar a natureza instintiva. Esta é uma força natural que procura superação, que o homem deve usar na sua vida. A busca pela superação, no processo de atingir uma condição superior na sua existência como super homem, juntamente com o eterno retorno são idéias que completam o conceito da vontade potência. O eterno retorno é o princípio que transpassa a existência, o que foi e virá a ser, repetidas vezes, eternamente. Isto tem a ver com a intuição de Nietzsche de que não há uma finalidade para a humanidade a não ser o indivíduo se tornar um espécime superior, e sendo superior é atemporal, pois afirma seu próprio ser. Não há finitude ou infinitude, apenas o retorno de tudo que já existiu, assim, a vida só se justifica como fenômeno estético, quando alguém atinge a perfeição que todos almejam, e apodera-se da própria vida. O momento em si é singular e eterno, assim, o homem que transpõe o abismo entre o animal e sua verdadeira essência, atingindo o estado de super-homem, torna-se eterno neste instante. Meus irmãos, permanecei fiéis à terra com todo o poder da vossa virtude. Sirvam ao sentido da terra o vosso amor dadivoso e o vosso conhecimento. Não deixeis a vossa virtude fugir das coisas terrestres e adejar contra as paredes eternas. Restituí, como eu, à terra a virtude extraviada. Sim; restituí-a ao corpo e à vida, para que dê à terra o seu sentido, um sentido humano. (Nietzsche, in Giles, 124). DISCUSSÃO Reflexão comparativa sobre as posições filosóficas dos dois autores A radicalização em Kierkegaard colocando a fé como expressão suprema da existência autêntica se contrapõe à Nietzsche, que afirma a existência corajosa na busca da verdade, entretanto baseada na realidade, sem almejar a imortalidade, pois Deus está morto. Entretanto ambos são contrários à edificação de um sistema geral do pensamento filosófico, e se colocaram contra um racionalismo que idealiza os conceitos. Tanto Nietzsche quanto Kierkegaard fizeram uma filosofia que refletia suas convicções, baseados em seus princípios de fé em Deus ou superação humana. A própria visão do mundo e a reflexão sobre ele que desencadearam seus princípios fundamentais. Estes filósofos refletiram sobre a existência, sobre o bem e o mal, usando contradições, dualismos, e verdadeiros combates para tentar dar respostas sobre qual o comportamento do homem frente à sua vida que seria mais autêntico, mais livre. Eles buscam a superação do homem por si mesmo, uma transcendência do humano, da banalidade para existência plena. Ambos colocaram o indivíduo como ponto central do seu pensamento, afirmando que a liberdade depende da ação do ser humano sobre sua existência. As conseqüências da própria existência são de responsabilidade do indivíduo, e assim o seu valor é o aperfeiçoamento da vida para uma existência mais elevada. CONCLUSÃO O contato com o pensamento existencialista tem a capacidade de mudar a maneira de enxergar o mundo em que vivemos e como vivemos nele. As pessoas na atualidade têm uma visão cercada pela ideologia capitalista que as atormenta e traz sofrimento constante, pela eterna insatisfação e procura de realização, pelo acúmulo de coisas que desejam, em um processo contínuo de avidez. O medo de não conseguir ter o ansiado, o medo da violência, a angústia da superficialidade não surtem efeito de uma reflexão maior sobre sua existência, e mesmo quando perguntam se há algum sentido, esta pergunta apenas é um indício infantil de frustração e sentimento de injustiça. Kierkegaard e Nietzsche mostram que o homem é o projeto que faz da sua vida, as escolhas e as responsabilidades sobre elas. O homem existe na medida em que realiza este projeto. Todos nós temos a responsabilidade sobre a nossa liberdade, e por ela, sentir a verdadeira angústia que levará ao exercício pleno desta liberdade. BIBLIOGRAFIA GILES, Thomas Ransom. História do Existencialismo e da Fenomenologia. Vol. I. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1975.
(*1)Estádio, palavra mal traduzida
do texto original de Giles, refere-se a estágio ou dimensão.
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A FILOSOFIA DA EXISTÊNCIA DE KIERKEGAARD E NIETZSCHE Seg, 17 de Novembro de 2008 © 2010 - Autores.com.br |
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